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4 de mar de 2011

Pois toda a lei se cumpre numa só palavra, a saber: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.Gálatas 5:14 Amarás teu próximo como a ti mesmo.(Mt 22,39) Como o amar ao próximo é fruto da obediência do amar sobre tudo a Deus, João nos ensina que "se alguém diz: 'Eu amo a Deus' e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão a que viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?" (Cf. 1Jo 4.20).


O Amor Imperfeito Cumpre a Lei e 
Agrada a Demanda de Perfeição 
da Parte de Deus
por
John Piper

Os cristãos podem amar uns aos outros numa forma que nunca é perfeita nesta vida, mas que, todavia, agrada a Deus e cumpre a lei, embora a lei demande perfeição. Como isso pode acontecer?
Primeiro, deixe-me defender a reivindicação de que amamos apenas imperfeitamente nesta vida. Eu baseio isto em duas coisas. A primeira é o ensino bíblico comum de que não somos pessoas sem pecado ou justas. Por exemplo:
  • 1 Reis 8:46, “Não há homem que não peque”.
  • Salmo 143:2, “Não entres em juízo com o teu servo, porque à tua vista não há justo nenhum vivente”. 
  • Eclesiastes 7:20, “Não há homem justo sobre a terra que faça o bem e que não peque”. 
  • 1 João 1:8, “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós”.
  • Salmo 19:12, “Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas”.
Eu admito que, logicamente, uma pessoa pode encontrar um espaço minúsculo para um ato perfeito e sem pecado de amor, em vista dessa descrição sombria da nossa condição. Dizer que ninguém não comete pecado, estritamente falando, não é o mesmo que dizer que ninguém pode realizar um ato perfeito de amor de vez em quando. Mas eu não estou encorajado a pensar que isso ocorrerá, especialmente em vista da segunda consideração.
A segunda razão pela qual eu penso que o nosso amor nunca é perfeito nesta vida é que amar envolve não cobiçar. Paulo cita alguns dos dez mandamentos, incluindo “Não cobiçarás”, e então diz que todos eles “se resumem nesta palavra: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo'... o amor é cumprimento da lei” (Romanos 13:9-10). Assim, amar o nosso próximo perfeitamente significaria que o ato de amor não teria nem mesmo uma lembrança de cobiça nele.
O que é cobiça? Cobiça é o desejo por coisas (boas ou más) que é mais forte do que ele deveria ser — um tipo de desejo que reflete uma falta de satisfação em Deus. Assim, para um ato de amor ser perfeito, ele teria que ser livre de cobiça, isto é, livre de qualquer indício de desejo que reflita uma satisfação em Deus que seja menos do que perfeita. À medida que considero o coração humano e a batalha que enfrentamos ao mortificar a nossa velha natureza (Romanos 8:13; Colossenses 3:5), a reivindicação de ter, em algum momento, um coração com perfeita satisfação em Deus não é crível. Assim, eu toma as palavras de Paulo em Filipenses 3:12 com absoluta seriedade:“Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição...”.
Todavia, nosso amor sempre-imperfeito pode agradar a Deus e cumprir a lei, embora não perfeitamente. A demanda da lei por um amor perfeito (amor com nenhuma lembrança de cobiça) é cumprido por Cristo somente. Portanto, o fundamento da nossa aceitação pelo perfeito Doador da lei perfeita é que estamos em Cristo e temos sua perfeição contada como nossa (2 Coríntios 5:21). Mas embora esse seja o fundamento da nossa aceitação por Deus, a Bíblia também ensina que, sobre a base dessa aceitação, vivemos e devemos viver agora duma forma que cumpra imperfeitamente a lei.
Romanos 8:3-4 traz a obra de Cristo e a nossa obras juntas dessa forma:
“Porquanto o que fora impossível à lei, no que estava enferma pela carne, isso fez Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado, a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito”.
Esse não é um cumprimento hipotético da lei. Não é algo feito fora de nós. É, Paulo diz, “a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós”.
Assim, como um fundamento para todo o nosso cumprimento imperfeito da lei — isto é, nosso andar imperfeito pelo Espírito em amor — há o sacrifício e a justiça de Cristo. Ele suportou o castigo de todos os nossos fracassos, e providenciou toda a nossa perfeição.
Isso significa que a Bíblia está disposta a nos chamar de “justos”, embora “não haja justo, nem um sequer” (Romanos 3:10). E isso não significa meramente que somos justificados, mas que realmente manifestamos isso em nosso viver, embora com uma justiça imperfeita. Você pode ver esse uso paradoxal de linguagem claramente em diversos textos. Por exemplo, Eclesiastes 7:20 diz: “Não há homemjusto sobre a terra que faça o bem e que não peque”. Mas cinco versículo antes, lemos: “Há justo que perece na suajustiça, e há perverso que prolonga os seus dias na sua perversidade”. E no Salmo 41:4, o salmista diz: “Disse eu: compadece-te de mim, SENHOR; sara a minha alma, porque pequei contra ti”. Mas então ele diz ao Senhor no versículo 12: “Tu me susténs na minhaintegridade”. Assim, há justos que não são justos. E há pecadores que têm integridade. [1]
A mesma coisa pode ser mostrada a partir do uso de Paulo da palavra “sem culpa” [N.T.: ou “irrepreensível”, dependendo da versão]. Embora Paulo fale em Filipenses 3:12 que seus melhores esforços são imperfeitos, ele ainda descreve os crentes como “irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo” (Filipenses 2:15). Assim, há uma irrepreensibilidade imperfeita, assim como há uma justiça não-justa e uma integridade que comete pecado.
Assim, de volta ao meu ponto: os cristãos podem amar uns aos outros de uma forma que nunca é perfeita nesta vida, mas que, todavia, agrada a Deus e cumpre a lei, embora a lei demande perfeição. Como esse amor imperfeito cumpre realmente a lei (imperfeitamente)?
Primeiro, nosso amor imperfeito é o primeiro dos frutos de uma perfeição final que Cristo completará em nós em seu aparecimento. Segundo, nosso amor imperfeito é o fruto de nossa fé em Jesus, que é a nossa perfeição justificadora diante de Deus. O único cumprimento da lei do qual dependemos como a base de nossa justificação é o cumprimento da lei por Jesus. O dele foi perfeito; o nosso é imperfeito. Nosso amor imperfeito agora, e nosso amor perfeito mais tarde, sempre será o fruto da fé que olha para Jesus, nossa única perfeição. A lei é cumprida em nósimperfeitamente porque ela foi cumprida nele perfeitamente. E nossa imperfeiçãoé um indicador de sua perfeição, e esse indicar é o objetivo da lei. Assim, mesmo nosso amor imperfeito é um cumprimento real da lei, embora não um cumprimento perfeito.

Notas:
[1] Na verdade, não há nada de paradoxal nesses versículos e nas afirmações do Pr. John Piper, visto que as palavras não são usadas no mesmo sentido, ou seja, somos injustos em nós mesmos, mas justos em Cristo. Se a Bíblia afirmasse que somos injustos em nós mesmos e justos em nós mesmos, aí sim haveria um paradoxo, uma contradição, o que é impossível que aconteça com a Palavra inerrante de Deus. A justiça que temos não é infundida, mas imputada!


Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto
Cuiabá-MT, 21 de Setembro de 2005. 
Fonte:Monergismo


O amor a Deus torna-se a forma do nosso amor pelos outros


Com essa grande descoberta — que Deus é a fonte inesgotável da nossa alegria— a maneira em que amamos os outros é mudada para sempre. Agora, quando Jesus diz: "Ame o seu próximo como a Si mesmo", não respondemos: "Oh, isso me amedronta. Meu amor a mim mesmo é impossibilitado pelas exigências do meu próximo. Jamais poderei fazer isso". Em vez disso, dizemos: "Oh sim, eu amo a mim mesmo. Anseio por alegria, satisfação, realização, significado e segurança. 

Mas Deus me chamou — na verdade, ordenou-me— para vir primeiro a ele para buscar todas essas coisas. Ele ordena que meu amor por ele seja a forma do meu amor por mim. Que todos os meus anseios por mim encontro nele. Isso é o que o meu amor a mim mesmo é agora. É meu amor a Deus. Eles se tornaram um. Minha busca por felicidade é agora nada mais que minha busca por Deus. E ele tem sido achado".

Então, o que Jesus está ordenando no segundo mandamento — que amemos nosso próximo como a nós mesmos? Ele está mandando que nosso amor a nós mesmos, que agora descobriu sua realização no amor a Deus, seja a medida e o conteúdo do nosso amor ao próximo. Ou, colocando de outra forma, ele está mandando que nossa busca inata de nós mesmos, que agora foi redirecionada em busca de Deus, transborde e se expanda em direção ao nosso próximo. Por exemplo:  Se você anseia por ver mais da abundância e liberalidade no suprimento de comida, casa e vestimenta, procure mostrar a outros a grandeza dessa abundância divina pela generosidade que você encontrou nele. Deixe-a realização do seu próprio amor a Si mesmo no amor a Deus transbordar em amor ao próximo. Ou, melhor, procure fazer com que Deus, que é a realização do seu amor a Si mesmo, transborde por meio de você e se torne a realização do amor do seu próximo a Si mesmo.

Se você quer experimentar mais da compaixão de Deus no consolo que ele lhe dá quando você está triste, procure mostrar a outros mais da compaixão de Deus, pelo consolo que você lhes estende quando eles estão tristes.

Se você anela por saborear mais da sabedoria de Deus nos conselhos que lhe dá quando seus relacionamentos estão sob tensão, procure passar mais da sabedoria de Deus a outros nos relacionamentos tensos deles. Se você se compraz em ver a bondade de Deus em momentos relaxados de lazer, proporcione essa bondade a outros ajudando-os a ter lazer.

Se você quer ver mais da graça salvadora manifesta poderosamente em sua vida, estenda essa graça à vida dos outros que carecem de graça salvadora. Se você se regozija nas riquezas da amizade pessoal de Deus em circunstâncias boas ou ruins, estenda essa amizade aos solitários, em qualquer circunstância.

Sempre haverá perplexidade

Não estou querendo dizer que isso responde a todas as nossas indagações sobre o amor, ou que afasta todo tipo de ameaça quando amamos nosso próximo. Há sempre momentos de perplexidade na vida de amor. Há demandas que competem por nosso tempo limitado. Há escolhas difíceis quanto ao que abrir mão e ao que conservar. Há interpretações diferentes do que é bom para a outra pessoa. 

Não estou dizendo aqui que tudo isso se torna simples. O que quero dizer é isso: amar a Deus nos sustenta em toda a alegria, dor, perplexidade e incerteza do que amar o nosso próximo deve ser. Quando o sacrifício é grande, lembramos que sua graça nos basta.

Quando somos distraídos pelo mundo e nosso coração cede espaço temporariamente ao egoísmo, lembramos que somente Deus pode nos satisfazer, arrependemo-nos e amamos sua graça ainda mais. 


O amor ao próximo [ 2.8.54-55 ]

O tema do amor ao próximo – expressão da Lei do Senhor – é desenvolvido um pouco mais por Calvino nas próximas seções. A pessoa do próximo é o tema principal agora, mas antes é preciso que entendamos a expressão “como a ti mesmo”. Para o reformador isso significa que precisamos amar aos outros com a mesma intensidade que amamos a nós mesmos. Com efeito, aquele que dedica-se apenas a si mesmo mostra viver uma vida miserável e fria.


“A observância dos mandamentos não é o amor por nós mesmos, mas o amor por Deus e pelo próximo, e que vive de maneira a mais nobre e a mais santa aquele que vive e luta por si o mínimo possível, e que ninguém, de fato, vive mais indignamente, nem mais iniquamente, que aquele que vive e luta apenas por si e cogita e busca somente o que lhe é do interesse. E, além disso, para que mais expressasse o Senhor com quão grande propensão nos importa aferrar-nos ao amor do próximo, reportou-se ele ao amor por nós mesmos como a seu parâmetro, visto que não tinha nenhum afeto mais veemente e mais forte pelo qual expressá-lo. “ (2.8.54, p.175)
Mesmo em nossa natureza caída guardamos afetos em relação ao nosso ser, e o próximo deve receber esta mesma afeição. Ao invés de nos dedicarmos apenas a nós mesmos, temos aqui a ordem para dedicar-se aos outros.
“Em razão da depravação natural, costumava em nós residir o afeto do amor para conosco próprios, deve-se ele agora estender a outrem, de sorte que estejamos preparados para, com não menor alegria, ardor, solicitude, fazer o bem antes ao próximo que a nós mesmos.” (2.8.54, p.176)
Mas quem seria o próximo? A parábola do bom samaritano nos ensina que são todos aqueles, sem exceção. Calvino entende que, é evidente, nos dedicaremos aos mais próximos de nós em especial. Mas isso não exclui nossa obrigação com todos.
“Afirmo, porém, que se deve abraçar com um só afeto de caridade a todo gênero humano, sem qualquer exceção, porquanto aqui não há nenhuma distinção de bárbaro ou grego, de digno ou indigno, de amigo ou inimigo, visto que devem ser considerados em Deus, não em si mesmos, consideração esta da qual, quando nos desviamos, não surpreende que nos emaranhemos em muitos erros.” (2.8.55, p.176)
A idéia de que eles devem ser “considerados em Deus” é a base para colocarmos o mandamento de amar a todos como a nós mesmos em prática. O Senhor é aquele que nos diz para amar. Não devemos colocar nossos sentimentos pessoais acima do nosso amor pelo Criador, e nem de sua autoridade.
“Conseqüentemente, se apraz manter a verdadeira linha do amar, devem-se voltar os olhos, em primeiro plano, não para o homem, cuja visão mais freqüentemente engendraria ódio que amor, mas para Deus, que manda que o amor que lhe deferimos seja difundido em relação a todos os seres humanos, de sorte que seja este o perpétuo fundamento: seja quem for o homem, deve ele, no entanto, ser amado, já que Deus é amado.” (idem)

Que não fujamos desse mandamento com desculpas de qualquer tipo, mas que sejamos graciosos como o próprio Senhor é.
-João Calvino




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