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14 de nov de 2010

Jonathan Edwards - Todo Homem Nasce Mau - R. C. Sproul







Evidência para o Pecado Original


Uma faceta interessante da defesa de Edwards da visão clássica da queda e do pecado original é a sua tentativa de mostrar que mesmo se a Bíblia fosse silenciosa sobre o assunto, essa doutrina seria demonstrada pela evidência da razão natural. Uma vez que os fenômenos da história humana demonstram que o pecado é uma realidade universal, deveríamos buscar uma explicação para essa realidade. Em termos simples, a questão é: Por que todas as pessoas pecam?


Aqueles que negam a doutrina do pecado original geralmente respondem a essa pergunta apontando para as influências corruptoras das sociedades decadentes. O homem nasce num estado de inocência, dizem, mas é subseqüentemente corrompido pela influência imoral da sociedade.


Essa idéia pede a questão: Como a sociedade se tornou corrupta em primeiro lugar? Se todas as pessoas nascem inocentes ou num estado de neutralidade moral, com nenhuma predisposição para o pecado, por que pelo menos uma média estatística de cinqüenta por cento das pessoas não permanece inocente? Por que não podemos encontrar sociedades nas quais a influência prevalecente é a virtude no lugar do vício? Por que a sociedade não nos influencia a manter a nossa inocência natural?


Mesmo os críticos mais otimistas da natureza humana, aqueles que insistem em que o homem é basicamente bom, repetem o aforismo axiomático persistente "Ninguém é perfeito". Por que ninguém é perfeito? Se o homem é bom no seu âmago e o mal é periférico, tangencial ou acidental, por que o âmago não vence sobre o tangente, a substância sobre os acidentes? Mesmo na sociedade na qual nos encontramos hoje, na qual os absolutos morais são vastamente negados, as pessoas ainda admitem prontamente que ninguém é perfeito. O conceito de "perfeito" tem sido desnudado pela rejeição dos absolutos morais. Apesar dos padrões ou normas de perfeição mais baixos do que aqueles revelados na Escritura, reconhecemos que mesmo esse "modelo" não é alcançado. Com o menor denominador comum da ética como o imperativo categórico de Immanuel Kant, ainda deparamos com a frustração de falhar em viver à sua altura.


Podemos diminuir os padrões éticos, deixando-os abaixo do nível da perfeição atual e ainda falharmos em alcançar esses padrões. As pessoas alegam um compromisso com o relativismo moral mas quando alguém rouba a nossa bolsa ou nossa carteira, ainda clamamos: "Delito".


Subitamente, o credo de que "cada um tem o direito de fazer o que bem entender" é desafiado quando o que uma pessoa faz entra em conflito com os interesses de outra pessoa.


Edwards viu na realidade universal do pecado uma evidência múltipla para a tendência universal para o pecado. Edwards expressa uma objeção a isso e, então, responde a essa objeção:


Se alguém disser, embora seja evidente que haja uma tendência no estado das coisas a este acontecimento geral - que toda a humanidade deva falhar na obediência perfeita e pecar e causar a si própria um demérito de ruína eterna; e também que essa tendência não se encontra em qualquer circunstância diferenciada de nenhum povo, pessoa ou era em particular - mesmo assim, isso pode não se encontrar na natureza do homem, mas na constituição e estrutura geral deste mundo. Embora a natureza do homem possa ser boa, sem qualquer propensão ao mal inerente nela, mesmo assim a natureza e o estado universal deste mundo podem ser repletos de tantas e fortes tentações e de uma influência tão poderosa sobre uma criatura como o homem, que habita num corpo tão débil, etc. que o resultado de tudo isso pode ser uma tendência forte e infalível num tal estado de coisas para o pecado e ruína eterna de cada membro da humanidade.


Edwards responde a essa suposição com a seguinte réplica:

A isso eu responderia que uma evasão como essa não iria, de forma alguma, beneficiar o propósito daqueles a quem me oponho nesta controvérsia. Ela não altera o caso para esta questão, se o homem, em seu estado presente, é depravado e arruinado pela propensão para o pecado. Se qualquer criatura tiver uma natureza tal que mostra o mal em seu lugar apropriado, ou na situação em que Deus o designou no universo, ela é de uma natureza má. Que parte do sistema não é bom, o qual não é bom no seu lugar no sistema; e essas qualidades inerentes dessa parte do sistema, as quais não são boas mas corruptas naquele lugar, são justamente consideradas qualidades inerentes más. Essa propensão é verdadeiramente considerada como pertencente à natureza de qualquer ser, ou como sendo inerente a ele, que é a conseqüência necessária da sua natureza, considerada conjuntamente à sua situação apropriada no sistema universal da existência, seja esta propensão boa ou má.


Edwards traça uma analogia da natureza para ilustrar o seu ponto: "É a natureza de uma pedra ser pesada; mas mesmo assim, se ela fosse colocada, como poderia ser, a uma distância deste mundo, não teria essa qualidade. Mas sendo uma pedra, tem uma natureza tal que terá essa qualidade ou tendência em seu lugar apropriado neste mundo; onde Deus a fez, é adequadamente considerada como uma propensão pertencente à sua natureza.... Assim, se a humanidade tem uma natureza tal que tem uma tendência eficaz universal para o pecado e ruína neste mundo, onde Deus a fez e a colocou, isso deve ser considerado como uma tendência perniciosa pertencente à sua natureza".


Edwards conclui que dentro da natureza do homem há uma propensão para o pecado. Essa inclinação é parte da natureza inerente ou constituinte do homem. Ela é natural à humanidade caída. Quando a Escritura fala do "homem natural", refere-se ao homem como ele é desde a queda, não como foi originalmente criado. A queda foi uma queda real e não uma manutenção do status quo da criação.


João Calvino reconhecia que os homens, embora caídos, realizavam obras de justiça aparente, e chamava essas obras de atos de justiça cívica. Tais "virtudes", as quais Agostinho chamava de "vícios esplêndidos", podem corresponder exteriormente à lei de Deus, mas não procedem de um coração inclinado a agradar a Deus, ou de um coração que ama a Deus. Nas categorias bíblicas, uma obra boa ou virtuosa não apenas corresponde exteriormente às prescrições da lei de Deus mas também procedem de uma disposição interior ou motivo enraizado no amor de Deus. Num sentido real, o Grande Mandamento para amar a Deus com todo o coração fundamenta o julgamento moral de toda a atividade humana.


Com respeito à preponderância das más obras sobre as boas, Edwards diz: "Nunca permita que tantos milhares ou milhões de atos de honestidade, boa natureza, etc, sejam supostos; mesmo assim, pela suposição, há uma propensão infalível para um mal moral tal que nas suas conseqüências terríveis, superam infinitamente todos os efeitos ou conseqüências de qualquer suposto bem".


Edwards prossegue apontando o grau de maldade e atrocidade que está envolvido em apenas um pecado contra Deus. Tal ato é tão grave porque é cometido contra um ser tão santo, que superaria a soma de qualquer quantidade de virtude contrastante. "Aquele que, em alguma circunstância ou grau, é transgressor da lei de Deus", diz Edwards, "é um homem mau, e mais, totalmente mau aos olhos da lei; toda a sua bondade é considerada nada, nada podendo ser contado a seu favor quando considerado juntamente à sua maldade".


Nesse ponto, Edwards repete o sentimento de Tiago dizendo que o pecado contra um ponto da lei é o mesmo que pecar contra toda a lei (Tg 2.10-11) e, naturalmente, contra o próprio autor da lei. Semelhantemente, Edwards diz que as obras de obediência, estritamente falando, não podem superar a desobediência. Quando somos obedientes, estamos meramente fazendo o que Deus requer de nós. Aqui, não podemos ser nada além do que servos inúteis.


Edwards vê evidências da natureza depravada do homem na propensão dos humanos em pecarem imediatamente, tão logo sejam moralmente capazes de cometerem um pecado real. Vê mais evidências no fato de que o homem peca contínua e progressivamente e que a tendência persiste mesmo nos mais santificados dos homens. Edwards também acha significante o que ele chama de "grau extremo de tolice e estupidez em assuntos de religião".


Numa rápida olhada na história humana, Edwards fornece um catálogo de desgraças e calamidades que foram cometidas pela raça humana e sobre ela. Mesmo o mais cansado observador da História deve admitir que as coisas não estão certas com o mundo. Então, Edwards se move para a universalidade da morte como prova para a universalidade do pecado. Na visão bíblica, a morte entrou no mundo por meio do pecado e por causa dele. Ela representa o julgamento divino sobre a maldade humana, um julgamento infligido mesmo sobre os bebês que morrem na infância. "Na Escritura, é dito que a morte é a principal calamidade", observa Edwards, "o mais extremo e terrível mal natural neste mundo".


A Bíblia e o Pecado Original


Edwards, então, volta a sua atenção para a garantia bíblica da doutrina do pecado original. Ele presta atenção particular ao ensino de Paulo em Efésios 2.


Outra passagem do apóstolo com propósito semelhante ao que temos considerado no quinto [capítulo] de Romanos é o de Efésios 2.3: "e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais". Isso permanece como um testemunho claro da doutrina do pecado original, como sustentada por aqueles que eram comumente chamados de cristãos ortodoxos, depois de todo o esforço e estratagemas usados para torcê-la e pervertê-la. Essa doutrina, aqui, não apenas ensinava claramente e de maneira completa, mas também abundantemente, se considerarmos as palavras com o contexto, quando os cristãos são repetidamente representados como seres, no primeiro estado, mortos no pecado, e despertados e ressuscitados de tal estado de morte numa exibição extremamente maravilhosa da livre e profunda graça e amor e da grandeza excelente do poder de Deus, etc.


Com relação ao ensino uniforme da Escritura, Edwards conclui: "Como essa posição é, em geral, completa e clara, assim a doutrina da corrupção da natureza, originada por causa de Adão, e também a da imputação do seu primeiro pecado, são ambas claramente ensinadas nela. A imputação da transgressão de Adão é, de fato, muito direta e freqüentemente afirmada. Somos, aqui, assegurados de que 'pelo pecado de um homem, a morte passou a todos'.... E é repetidamente reiterado que 'todos estão condenados', 'muitos estão mortos', 'muitos se tornaram pecadores', etc. 'pela ofensa de um só homem', 'pela desobediência de um só', e 'pela ofensa de um'".


Finalmente, Edwards argumenta em prol do pecado original a partir do ensino bíblico com relação à aplicação da redenção. A obra do Espírito na regeneração é um antídoto necessário para uma condição prévia corrupta: "É quase desnecessário observar o quão claro isso é dito como necessário para a salvação e como a mudança na qual os hábitos da verdadeira virtude, santidade e caráter de um verdadeiro santo são conquistados, como já foi observado quanto à regeneração, conversão, etc. e o quão visível é que a mudança é a mesma.... Assim, todas essas frases significam ter um novo coração e ser renovado no espírito, de acordo com o seu significado simples"."

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