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5 de out. de 2010

A revelação de Deus é suficiente para nossa fé - Spurgeon Postado por Charles Spurgeon / On : 14:47/ SOLA SCRIPTURA - Se você crê somente naquilo que gosta no evangelho e rejeita o que não gosta, não é no Evangelho que você crê,mas, sim, em si mesmo - AGOSTINHO.


O que poderíamos acrescentar se a revelação de Deus não fosse suficiente para nossa fé? Quem pode responder essa pergunta? O que qualquer pessoa proporia acrescentar à Palavra sagrada? Um momento de reflexão nos levaria a escarnecer das mais atraentes palavras de homens, se fosse proposto acrescentá-las à Palavra de Deus. O tecido não estaria em uma peça única. Você adicionaria remendos a uma veste real? Você guardaria a sujeira das ruas no tesouro do rei? Você juntaria as pedrinhas da praia aos diamantes preciosos da antiga Golconda? Qualquer coisa que não seja a Palavra de Deus posta diante de nós para que creiamos e preguemos como se fosse a vida do homem nos parece totalmente absurda, contudo, enfrentamos uma geração de homens que sempre querem descobrir uma nova força motriz e um novo evangelho para suas igrejas. A manta de sua cama parece não ser suficientemente longa, e eles querem pegar emprestado um metro ou dois de tecido misto e incongruente dos unitaristas, agnósticos ou mesmo dos ateístas.

Bem, se existe qualquer força espiritual ou poder dirigido aos céus, além daquele relatado nesse Livro, acho que podemos passar sem ele. Na verdade, deve ser uma falsificação tão grande que estamos melhor sem ela. As Escrituras em sua própria esfera são como Deus no universo Todo-suficiente. Nelas estão reveladas toda a luz e poder que a mente do homem pode precisar em relação às coisas espirituais. Ouvimos falar de outra força motriz além daquela encontrada nas Escrituras, mas cremos que tal força é um nada muito pretensioso. Um trem está descarrilado, ou incapaz de prosseguir por outro motivo, quando chega a turma do conserto. Trazem locomotivas para tirar o grande impedimento. A princípio parece que nada se mexe: a força da locomotiva não é suficiente. Escutem! Um garotinho tem uma idéia. Ele grita: "Pai, se eles não têm força suficiente, eu empresto meu cavalo de balanço para ajudá-los". Ultimamente, recebemos a oferta de um considerável número de cavalos de balanço. Pelo que vejo, eles não têm conseguido muito, mas prometeram bastante. Temo que o efeito disso tenha sido mais maléfico que benéfico: eles já levaram pessoas a zombar e as retiraram dos lugares de culto que antes gostavam de freqüentar. Os novos brinquedos foram exibidos, e as pessoas, depois de olhá-los um pouco, foram adiante, à procura de outras lojas de brinquedos. Esses belos e novos nadas não lhes fizeram bem nenhum e nunca farão enquanto o mundo existir.

A Palavra de Deus é suficiente para atrair e abençoar a alma do homem ao longo dos tempos; mas as novidades logo fracassam. Alguém pode bradar: "Certamente, precisamos acrescentar nossos pensamentos a isso". Meu irmão, pense o que quiser, mas os pensamentos de Deus são melhores do que os seus. Você pode ter lindos pensamentos, como as árvores no outono soltam suas folhas, mas há alguém que sabe mais sobre seus pensamentos do que você e os julga de pouco valor. Não é verdade que está escrito: "O Senhor conhece os pensa-mentos do homem, e sabe como são fúteis?" (Sl 94.11). Comparar nossos pensamentos aos grandes pensamentos de Deus, seria total absurdo. Você traria sua vela para mostrá-la ao sol? O seu nada para reabastecer o todo eterno? É melhor calar diante do Senhor, do que sonhar em complementar o que ele falou. A Palavra do Senhor está para a concepção dos homens como um pequeno jardim, para o deserto. Mantenha-se no escopo do livro sagrado e estará na terra que mana leite e mel; por que tentar lhe acrescentar as areias do deserto?
Não jogar fora nada do livro perfeito


Tente não jogar fora nada do livro perfeito. O que você encontra nele permita que ali fique, e o faça seu para pregar conforme a analogia e o tamanho da fé. Aquilo que é digno de ser revelado por Deus é digno de nossa pregação--isso é o mínimo que posso dizer a respeito. "Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus" (Mt 4.4; Dt 8.3). "Cada palavra de Deus é compro-vadamente pura; ele é um escudo para quem nele se refugia" (Pv 30.5). Permita que cada verdade revelada seja apresentada a seu tempo. Não procure assunto em qualquer outro lugar, pois com tal infinitude de temas diante de você não há necessidade de assim fazer; com tão gloriosa verdade para pregar seria uma audaciosa crueldade fazer isso.

Autoconfiança – João Calvino


- Por esse motivo, aquele que pensa estar de pé, preste atenção para que não venha a cair (1Co 1012). -

Paulo conclui, à luz do precedente, que não devemos ensoberbecer-nos de como começamos, ou de nosso progresso, de modo a nos tornarmos complacentes e indolentes. Pois os coríntios se sentiam tão vangloriosos de sua própria situação que se esqueceram de quão fracos eram, e caíram em muitas práticas vergonhosas e nocivas. Mergulharam numa injustificada autoconfiança, semelhante à que os profetas estavam sempre a condenar no povo de Israel. Porém, visto que os papistas torcem este versículo com o fim de estabele¬cer seu ímpio dogma de que devemos viver sempre num estado de incerteza no tocante à fé, notemos bem que existem dois gêneros de confiança.

Um repousa nas promessas divinas, de modo que o crente é convencido, em seu coração, de que Deus jamais o deixa, e, escudado nesta invencível convicção, ele enfrenta a Satanás e ao pecado, alegre e destemidamente. Ao mesmo tempo, contudo, rememorando suas próprias fraquezas, ele se abandona em Deus, em temor e humildade, e, em sua angústia, se confia a ele de boa vontade. Este tipo de confiança é algo santo e saudável, e não pode ser alienado da fé, como é evidente de muitas passagens da Escritura, especialmente Romanos 8.33.

O outro tipo de confiança tem suas raízes na indiferença, quando os homens ardem de orgulho em virtude dos dons que possuem, e vivem completamente despreocupados sobre sua própria situação, senão que, ao contrário, aquiescem nela como se estivessem fora do alcance de qualquer perigo; com o danoso resultado de se verem expostos a todos os ataques de Satanás. E este tipo de confiança que Paulo deseja que os coríntios renunciem, porquanto ele percebia que sua presunção repousava numa crença irracional. Não lhes diz, porém, que vivessem num estado de ansiedade e in certeza quanto à vontade de Deus, ou que alimentassem medo de que a sua salvação não fosse algo definido e definitivo, segundo imaginam os papistas.

Sumariando, lembremo-nos de que Paulo está falando a homens que viviam convencidos em razão de uma equivocada confiança no ser humano, e ele está procurando pôr fim a tal fraqueza, a qual teve sua origem na dependência humana e não na divina. Pois, após louvar os colossenses por sua solidez ou 'firmeza na fé' (Cl 2.5), convida-os a permanecerem firmes, radicados em Cristo, e a serem "edificados nele e estabelecidos na fé" (Cl 2.7).

Não há salvação pelas obras, porque não há bem naquilo que o homem obra.


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Por Mizael Reis 


O que a mente alienada de Deus, mancomunada com as trevas, de mãos dadas com o maligno jamais entenderá, é que a salvação em e por Jesus Cristo, se dá única, exclusiva e efetivamente pela graça e por ela somente. A graça de Deus não age na mesa da barganha nem na peita do “uma mão lava a outra”. Não espera ser correspondida pelo seu objeto de alcance, pois se assim o fosse tal graça reduzir-se-ia banalmente a uma mera recompensa, porém, uma recompensa inalcançável, inacessível, pois o objeto que por ela obrasse, a saber, o homem, jamais a alcançaria, posto que tal homem sem Deus, jamais moverá sequer um passo em sua direção, isso porque o veredicto dado pela Escritura Sagrada o desfavorece, neste julgamento do qual Deus é o supremo Juiz e aferidor da sentença:



“Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um.” (Sl 53.2,3)

Somos salvos pela graça, porque pelo mérito seríamos condenados. Somos salvos pela graça, porque falta-nos a justiça necessária para entrarmos nos “santo dos santos” sem sermos fulminados. O homem sem Deus é ímpio, pois anseia tenazmente vaguear na senda incerta que o mundo o enclausurou com seus pés mancos, ouvidos moucos, visão turva e coração irremediavelmente entenebrecido pelo pecado que guerreia contra a paz de Deus, aprisionando-o no neste pecado, à mercê de suas insólitas consequencias. A ordem do Senhor para os que desejam agradá-lo é “Aparta-te do mal e faze o bem; e terás morada para sempre” (Sl 37.3). Porém, se tratando dos que querem agradá-lo sem responsabilizá-lo pela força e vida, tal como a seiva da raiz é responsável pelo fruto dos ramos de uma árvore, fracassarão, pois “Na verdade que não há homem justo sobre a terra, que faça o bem, e nunca peque.” (Ec 7.20)

O ímpio não pode laborar a favor da verdade porque “Com as suas línguas tratam enganosamente” (Rm 3.13). Não podem com seu fôlego louvar ao Senhor porque sua “boca está cheia de maldição e amargura” (Rm 3.14).Não conseguem trilhar sua lida em busca do caminho que os leva á vida Eterna porque “Os seus pés são ligeiros para derramar sangue, em seus caminhos há destruição e miséria; e não conheceram o caminho da paz..” (Rm 3.15).Não hesitam em praticar a maldade porque “Não há temor de Deus diante de seus olhos.” (Rm 3.18)

Por essa razão, a salvação não pode estar sob ombros humanos, a depender de seu engajamento para satisfazer as exigências salvíficas, porque não há, e jamais haverá sequer uma partícula de luz no recôndito do seu ser a brilhar, deste para Deus, para que por essa suposta e utópica boa ação, seja por Deus conquistado e recebido para salvação porque "Quem do imundo tirará o puro? Ninguém." (Jó 14.4)Analisemos a verdade da Escritura e o que por meio dela Deus nos revela. Se “do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias”(Mt 15.19) e “uma vez que tampouco pode uma fonte dar água salgada e doce.” (Tg 3.12), como então seria possível a essa vontade, submetida a uma força maior e antecessora que a controla, trilhar autonomamente, os retos caminhos de Deus? Se o coração do homem é fonte de toda sorte de pecados e se de uma fonte apenas, não seja possível jorrar simultaneamente uma torrente de água doce e outra amarga, então não há nada que esse homem faça para que por meio de méritos próprios se faça merecedor de Deus, praticando um suposto bem o qual se acha enganosamente capaz de fazer, isso porque o homem sem Deus é homem perdido, irreconciliável, destinado a condenação. 
Certamente, ante a essa exposição radical e radicalmente bíblica, alguns que são simpatizantes a salvação que segundo acreditam, se dá sinergicamente entre Deus e homem, me dirão que há um justiça no homem sim, embora inerte, porém a espreita, a fim de que ladeada da força de Deus, motivando este Deus a agir pela a ação primeira daquele, ajam juntos para benefício da salvação do homem, mas “ Como, pois, seria justo o homem para com Deus, e como seria puro aquele que nasce de mulher?" (Jó 25.4) Ou ainda, que homem, que por sua própria capacidade “poderá dizer: Purifiquei o meu coração, limpo estou de meu pecado?” (Pv 20.9). Nenhum homem pode ir contra sua própria natureza dantes boa, agora caída em sua própria estultícia porque “Deus fez ao homem reto, porém eles buscaram muitas astúcias.” (Ec 7.29) A Escritura Sagrada é a luz que vai adiante de nós, alumiando o caminho pela qual peregrinamos, e por meio dela, Deus desnuda-nos e mostra-nos quem de fato somos, e o que somos sem Deus, não agrada aos ouvidos do homem sem Deus.
Enquanto da Escritura a voz de Deus estrondeia a composição de nossa débil natureza, o homem sem Deus busca iludir-se ostentando uma força que não tem isso porque “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (jr 17.9). Ao Olhar Deus dos céus a vida dos homens na terra, ele sentencia: “Desviaram-se todos e juntamente se fizeram imundos: não há quem faça o bem, não há sequer um” (Sl 14.3).Se Deus, ao observar nossa frenética vida existencial, que gira em torno dos desejos que circundam o nosso umbigo, diz que ao homem lhe é impossível fazer o bem por si só, como se encorajam alguns a dizer que nos passos pelos quais se consuma a salvação, cabe o homem dar o primeiro passo a fim de que Deus, por meio de uma ação correspondente de honra ao mérito humano, responda-o dando o segundo passo? Que graça é essa, que espera o passo inicial de alguém e ainda se intitula de graça? Se alguém receber alguma coisa por merecer a isso não devemos chamar de graça, mas sim de soldo ou ainda salário e “o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor” (Rm 6.23). Se a morte é seu soldo merecido e a graça é dom gratuito ternamente concedido, então a morte é o que o homem merece, embora não receba (digo dos salvos) e graça é o que ele recebe embora não a mereça. 

A pergunta é: Se o homem é pecador e se sua nascente é má, sendo os desejos que dela elevam-se de igual modo corruptos, donde virá o suposto bem que alguns dizem o homem ter? A Escritura diz: “Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão se não há quem pregue? (Rm 10.14). Ou seja, como crerão naquele (porque por si mesmos não podem crer) que pode salvá-los, e como o conhecerão, senão por meio da palavra que apresenta Jesus aos seus corações, bem como acrescenta-lhes a fé necessária para crer nele, ou não “foi o Senhor lhe abriu o coração para que estivesse atenta ao que Paulo dizia?”(At 16.14). Sim de fato foi Ele, isso porque a “a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Rm 10.17). A Fé vem, não nasce do coração do homem, vem de quem a tem para concedê-la, ela vem “descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação.” (Tg 1.17)

O homem sem Deus é tão imundo que se “tu, SENHOR, observares as iniqüidades, Senhor, quem subsistirá?” (Sl 130.3). Se Deus levasse em conta quem o homem é, nem ao menos sería estendido a nós a possibilidade de salvação. A Salvação iniciou-se não por um desejo de Deus em dar ao homem a oportunidade que lhe é de direito, mas sim “Para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou,” (Rm 9.23). Os que resistem em se renderem à doutrina bíblica de que Deus é plenamente soberano e soberanamente responsável por tudo que aos homens é acometido, devem compreender que a Salvação é um ato arbitrário de Deus (Resultante de arbítrio pessoal; de ninguém mais além dele), no sentido de que ele não sofreu coerção, nem imposição para levá-la a efeito; Deus não é forçado a salvar para corresponder a alguma coisa que alguém possa ter feito a ele, pois “quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado?” (Rm 11.35) ou como para cumprir um roteiro de final feliz que alguém possa ter escrito para que assim o fosse. Pois então se Deus quisesse julgar-nos por aquilo que somos, nós aqui não estaríamos por isso o rogamos a que “não entres em juízo com o teu servo, porque à tua vista não se achará justo nenhum vivente” (Sl 143.2). E se assim não quisesse agir, alguns inconsequentes entre os poupados, jamais estariam agora o indagando dizendo “Que fazes? ou a tua obra: Não tens mãos?” (Is 45.9)
Isso não me assombra, pois não é outra coisa, senão a medida dos homens no cabal cumprimento das profecias de Deus. Não há sequer uma ínfima possibilidade de o homem ser bom levando sua salvação a seu termo e não há justificativas plausíveis para dizer que ele o seja ou possa vir a ser autonomamente, face ao mal do qual ele, o homem, está dolosamente envolvido jurídica e soberanamente responsabilizado por Deus. Desde a mais tenra idade, ou ainda, desde o início do seu “vir a ser” ele é mal, pois “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras”. (SL 58.3). 

Muitos são os que dizem que Deus, motivado por sua livre escolha de nos amar nos poupou do furor de sua ira, que justamente nos lançaria no inferno, onde a total separação com Deus imperaria eternamente. Somos alvos de sua infinita graça, de seu amor unilateral que jamais dependeu ou dependerá de seu objeto, de igual modo afirmam. Bom, então analisemos isso às últimas consequências. Se somos alvos de sua graça, o que de fato nós somos, então caso Deus optasse por agir de forma justa e não graciosa conosco, (o que ele fará com alguns), não poderíamos reprová-lo, nem argui-lo, pois estaria punindo-nos pelos erros que segundo nos constam, somos culpados. O que é culpa, senão o que Deus imputa em nos por sermos pecadores, e o que é graça senão a ação voluntária de Deus, em que, ao invés de permitir que sejamos ovelhas obstinadamente desgarradas, esse Deus, por si só e para si só, restitui-nos ao seu aprisco, buscando-nos quando não queríamos voltar, amando-nos quando o aborrecíamos, se entregando por nós, quando sequer beleza víamos nele para que o desejássemos? (Is 53.5) Sem Deus a nossa escolha seria o pecado, nada além de nos sujarmos no lamaçal do pecado“Porque o ímpio gloria-se do desejo da sua alma; bendiz ao avarento, e renuncia ao SENHOR." (Sl 10.3)

Se o homem nasce mal, isso significa que impossivelmente ele se tornará em algo além daquilo que ele inerentemente o é. Se caso houvesse no homem a capacidade de pelos seus próprios logros ser bom ou mau, tal ênfase que lhe é dada pela Bíblia, ao dizer que o homem é pecador seria incoerente, se caso lhe fosse possível ser um ou outro, bastando-lhe apenas correr atrás do prejuízo; mas isso, Israel bem que tentou. Com mãos sujas de sangue e templo profanado pela idolatria, Israel, pôs-se a tentar cumprir os mandamentos de Deus sem Deus. Mas o Eterno chamou o profeta e a seu povo por meio dele o exortou:

“Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal.”(Jr 13.23)
Portanto, salvação não pode acontecer pelas obras porque não há obras que lhe sejam boas, quando produzidas estritamente pela alçada humana.

Ainda alguém poderá perguntar: Mas por qual motivo faz-se necessário dizer tão enfaticamente que o homem é pecador? Além do fato de julgar tal proclamação relevante, pela razão de constarem tais declarações como minas na Escritura Sagrada, somente assim nós compreenderemos o quanto Deus se proclama como Soberano em nossa salvação. 

Somente assim entenderemos o Senhor Jesus a nos dizer que “sem mim nada podeis fazer.” (Jo 15.5). Entenderemos Paulo quando diz que “Não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus,” (2 Co 3.5), e assim daremos toda honra à Deus e sua justiça por estarmos onde estamos, nos lugares celestiais em Cristo Jesus, restaurados ao reino do filho do seu amor, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo.

Finalmente, assim, somente assim subiremos humildemente “ao templo”, não a esbanjarmos uma louca auto-justiça diante do Eterno, mas sim batendo a mão sobre ao peito, ao menear de nossa cabeça, certificaremos o quão indignos somos de seus favores, e assim declararemos, no grito de um suplicante pecador: 
“O Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” (Lc 18.13)
Graça e Paz
Mizael Reis

Nosso Companheiro de viagem – M. Lloyd-Jones


Não posso imaginar melhor, mais animadora e mais consoladora afirmação, com a qual enfrentar todas as incertezas e todos os riscos da nossa vida neste mundo limitado pelo tempo, do que a contida em Mateus 7, versículos 7-11. É uma daquelas promessas compreensivas e plenas de graça que só se encontram na Bíblia. . . esta é a promessa que nos alcança: «Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á» . . . Não há dúvida sobre ela; é certa; é uma promessa absoluta. . . feita pessoalmente pelo Filho de Deus, falando com toda a plenitude e autoridade do Pai.

De começo a fim a Bíblia nos ensina que essa é a única coisa que importa na vida. . . ela salienta que o que realmente importa na vida não é tanto a variedade de acontecimentos que nos sobrevêm. . . mas a nossa disposição para enfrentá-las. Em seu conjunto geral, o ensino bíblico quanto a como devemos viver é resumido naquele homem particular, que foi Abraão, de quem se nos diz: «Saiu, sem saber para onde ia». Não obstante, sentia-se perfeitamente feliz, em paz e repouso. Não tinha medo. Por que? Um velho puritano, que viveu há trezentos anos, responde por nós a pergunta: «Abraão saiu sem saber para onde ia; mas sabia com quem ia». É o que importa. . .

Não estava só; tinha junto de si Aquele que lhe dissera que nunca o deixaria nem o desampararia. E, embora não tivesse certeza quantos aos eventos que haveriam de vir a seu encontro, e quanto aos problemas que surgiriam, sentia-se perfeitamente feliz, porque sabia quem era seu Companheiro de viagem. O Senhor não promete mudar a vida para nós; não promete remover as dificuldades, problemas e tribulações; não afirma que extrairá todos os espinhos e deixar as rosas com seu inebriante perfume. Não. Ele encara a vida realisticamente, e nos adverte de que estamos sujeitos a essas coisas. Garante-nos, porém, que podemos conhecê-lo de tal modo que, haja o que houver, jamais precisaremos afligir-nos, nem ficar alarmados.

Studies in the Sermon on the Mount, ii, p. 195,6.

Redenção Específica - John L. Dagg



O FILHO DE DEUS DEU SUA VIDA PARA REDIMIR AQUELES QUE LHE FORAM DADOS PELO PAI, NO PACTO DA GRAÇA.

(Ef 5.25-27; Tt 2.14; Jo 10.11; Ap 1.5,6; At 20.28; Hb 10.14; Is 53.5,11).

As Escrituras ensinam que o Filho de Deus, ao vir ao mundo para dar a Sua própria vida, tinha em vista a salvação de um povo peculiar: "...o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles" (Mt 1.21); "O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas" (Jo 10.11); "Maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa..." (Ef 5.25-27).

As Escrituras também ensinam que a expectativa do Redentor será plenamente realizada, e que nenhum de todos quantos o Pai Lhe deu deixará de ser salvo: "Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma, e ficará satisfeito" (Is 53.11); "Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora"; "E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia" (Jo 6.37,39); "Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste" (Jo 17.24). E, finalmente, quando todos estiverem congregados no céu, Ele dirá: "Eis aqui estou eu, e os filhos que Deus me deu" (Hb 2.13). O Salvador terá a plena recompensa por Sua obediência até a morte, quando apresentar ao Pai todos os que lhe tinham sido dados no pacto da graça, para que fossem redimidos dentre todos os povos, reinos, línguas e nações da terra.

A redenção não será universal em sua consumação, pois os redimidos sairão dentre todos os povos, línguas e nações. Portanto, em qualquer dessas divisões da humanidade, nem todos estão incluídos. E a redenção também não pode ter sido universal em seu propósito; do contrário, o propósito falharia em sua consumação, pois nem todos, pelos quais a obra da redenção foi empreendida, seriam afetados e se salvariam.

Além da vontade de propósito, vimos que Deus tem uma vontade de preceito. De acordo com esta última, Deus ordena que todos em toda parte se arrependam; Ele requer de todos que creiam em Jesus Cristo, e é Sua vontade que todos honrem o Filho. A todos quantos obedecem à Sua vontade nestes particulares, Ele dá a promessa da vida eterna. O preceito e a promessa, estão ambos incluídos na vontade revelada de Deus. A vontade revelada de Deus é que o evangelho seja pregado a toda a criatura, e todos quantos o ouvem creiam, e todos os que crêem recebam a vida eterna. A vontade revelada de Deus é a regra de nossa fé, dever e esperança. Os que pregam e os que ouvem o evangelho estão autorizados e ordenados a regulamentar cada pensamento e ação pela vontade revelada de Deus. De acordo com essa vontade revelada, Cristo é apresentado como o Salvador do mundo (Jo 4.42); e os pecadores, sem exceção, são convidados e ordenados, a crer em Cristo.

Assim como o evangelho é pregado a todos os homens sem distinção, e todos são chamados a vir a Cristo para a vida, e nada senão a rejeição do evangelho impede a extensão das bênçãos do evangelho sobre todos os que o ouvem, segue que, a Palavra revelada de Deus fala dos ofícios e da obra de Cristo de acordo com as obrigações dos homens referentes a esses ofícios. Deve ser lembrado, entretanto, que o evangelho promete bênçãos somente àqueles que obedecem o evangelho. E, visto que a promessa, e não o preceito, é que serve de medida apropriada aos benefícios advindos do evangelho, os seus benefícios estão circunscritos a pessoas em particular, mesmo quando tal limitação, quanto à sua extensão, não parece figurar na linguagem bíblica. Por exemplo, Cristo é chamado de "o Salvador do mundo" (Jo 4.42) e de "a propiciação" pelos pecados do mundo inteiro (1 Jo 2.2). Por meio dEle veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida (Rm 5.18). Estas e outras expressões semelhantes nas Escrituras, representam os fatos como eles seriam, na suposição de que todos os homens cumprissem com o seu dever de crer no evangelho. Não obstante estas expressões de cunho geral, a vontade revelada de Deus assegura bênçãos somente aos obedientes.

As observações que têm sido feitas até aqui já são suficientes para mostrar que a redenção não é universal. Ela é específica em sua consumação e em seu propósito, sendo igualmente específica na revelação do propósito, revelação essa feita no evangelho. Os termos gerais "todos os homens", "o mundo inteiro" etc, que as Escrituras empregam para falar da extensão da redenção, não podem ser entendidos como se assegurassem os benefícios da redenção aos impenitentes e incrédulos. De acordo com a vontade secreta de Deus (ou vontade de propósito), a redenção está assegurada pela morte de Cristo, para todos os eleitos. De acordo com a vontade revelada de Deus, ela é assegurada somente para aqueles que crêem.

Na visão de algumas pessoas, o fato de a morte de Cristo servir como base para os apelos universais do evangelho, também é um argumento para a redenção universal. Mas de ninguém se pode dizer com propriedade que é redimido, se não obtém a libertação do pecado e nem jamais obterá. Já outras pessoas que admitem a doutrina da redenção específica, fazem distinção entre redenção e expiação, e, por causa da morte de Cristo permitir que o evangelho seja pregado a todos os homens consideram-na uma expiação pelos pecados de todos, ou então, uma expiação pelo pecado apenas em teoria. Contudo, o vocábulo neotestamentário empregado é, no grego, reconciliação (conforme Rm 11.15 e 2 Co 5.18,19). A reconciliação não é entre Deus e o pecado, em um sentido teórico, porque tal reconciliação é impossível. É, na verdade, uma reconciliação entre as pessoas, e uma reconciliação tão real que assegura salvação eterna: "Porque se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida" (Rm 5.10). Na visão de Paulo, serão salvos todos aqueles por quem a morte de Cristo fez a reconciliação ou expiação. E, portanto, a expiação não pode ser universal, a menos que a salvação seja universal. É possível empregar a palavra "expiação" em um sentido em que a sua abrangência seja uma mera questão de definição, mas é sempre melhor usar termos bíblicos no sentido em que são empregados nas escrituras.

Uma dificuldade surge quando se tem de harmonizar o caráter vicário da morte de Cristo e o convite universal do evangelho, a qual dificuldade pode ser formulada assim: Um convite irrestrito para todos os que ouvem o evangelho virem a Cristo para a vida, parece implicar que nEle foi feita uma provisão universal para todos os homens; e, para que assim fosse, parece necessário que Cristo tenha levado sobre si os pecados de todos.

Porém, a suposição de que Ele levou os pecados de toda a raça humana traz consigo muitas dificuldades. Antes de Cristo ter vindo ao mundo,multidões já tinham morrido em impenitência e estavam no outro mundo, sofrendo pelos seus pecados, enquanto Cristo padecia na cruz. Como poderia Ele ser um substituto e sofrer penalidade pelos pecados dessas pessoas, se elas estavam sofrendo por si mesmas a pena do pecado? E, se Ele levou sobre si a penalidade dos pecados de todos quantos já haviam morrido e ainda morreriam na impenitência, como é possível que os tais sejam requeridos uma segunda vez a satisfazer a justiça divina, sofrendo pelos próprios pecados?

Como solução para esta dificuldade (com a qual muitos têm ficado perplexos), existe a suposição de que o montante de sofrimento necessário para fazer um sacrifício de expiação é independente de quanto pecado tenha de ser expiado, poucos ou muitos. A hipótese merece ser respeitada, não apenas porque traz alívio à mente, mas também pelo fato de ter sido geralmente aceita por homens eruditos e piedosos. Entretanto, assim como qualquer hipótese inventada para remover uma dificuldade, esta suposição não deve ser transformada em artigo de fé, até que tenha sido provada.

Para suportar esta hipótese, tem-se argumentado que, visto que o salário do pecado é a morte, Cristo deve ter morrido por causa de um único pecado; e só era preciso que morresse para que fizesse a expiação dos pecados do mundo inteiro.

Mas tal argumento não sustenta a hipótese sugerida, a menos que se assuma que a morte é sempre a mesma, em qualquer caso imaginável. No entanto, a morte pode ser uma fácil e feliz transição deste mundo para um mundo de bem-aventurança. Não foi assim a morte de Cristo. Como salário do pecado, a morte envolve mais do que a mera dissolução do corpo; e Cristo, morrendo pelo pecado, levou sobre Si uma soma de aflições que não eram necessárias para a simples morte natural. Nesses sofrimentos, principalmente, consiste a eficácia de Sua morte expiatória, e não ousamos assumir que o montante de sofrimento deve ser o mesmo em qualquer caso que se possa supor. Os sofrimentos de Cristo derivam valor infinito na natureza divina do Filho de Deus; porém, tendo sido suportados pela Sua natureza humana, o montante final não poderia ter sido infinito. Assim, podemos supor que o total de sofrimentos possa ter sido diferente em diferentes circunstâncias. Por exemplo, os habitantes de Sodoma e Gomorra serão, no dia do juízo, sentenciados à segunda morte, como também os ainda mais culpados habitantes de Corazim e Betsaida; mas os horrores serão mais intoleráveis em um caso do que noutro. Uma analogia requer que Cristo, ao padecer pelos pecados do mundo inteiro, teria sofrido mais do que se tivesse sofrido por causa de apenas um único pecado.

Os defensores da hipótese anteriormente mencionada insistem que a expiação é moral, e não comercial. Para eles a noção de que tanto mais pecado tanto maior o sofrimento, faz com que a expiação se degrade, parecendo mera transação comercial. De acordo com uma ilustração dada anteriormente, se vinte homens têm uma dívida têm uma dívida de cem dólares, a justiça comercial será satisfeita se cada homem pagar cinco dólares. Porém, quando vinte homens conspiram para cometer um assassinato, a justiça moral, ou melhor, a justiça distributiva (pois a justiça comercial também é moral), tem por culpados cada um dos vinte homens, e merecedores da punição capital como se tivessem cometido o crime, cada um individualmente. Com base no mesmo princípio, dizem, a justiça moral não divide em partes a morte de Cristo, de acordo com a gravidade de cada ofensa. Antes, considera-a igualmente suficiente, seja para uma ou para muitas ofensas; e igualmente suficiente para os pecados do mundo inteiro, como para os pecados dos eleitos.

O argumento não é conclusivo. Não é verdade que o princípio de justiça distributiva repele a noção de que o sofrimento é proporcional ao pecado cometido. A balança da justiça opera no governo, tanto quanto no comércio; e uma parte essencial na administração da justiça consiste na de penalidades aos crimes. O roubo de plantas no jardim de um vizinho e o assassinato de um pai de família não são considerados crimes de igual magnitude, e nem tampouco recebem iguais penalidades. A justiça de Deus tem uma penalidade mais severa para Corazim e Betsaida do que para Sodoma e Gomorra. De tudo quanto temos conhecimento na administração da divina justiça, vemos que a noção do sofrimento ser correspondente `gravidade e ao montante de pecado tende a ser estabelecida, e não desacreditada.

A objeção de ficar a expiação reduzida a mera transação não é bem fundada. Embora se possa fazer distinção entre justiça autoritativa e justiça comercial, não se segue necessariamente que tudo quanto se possa afirmar a respeito de uma deva ser negado a respeito da outra. A justiça distributiva não se ocupa propriamente com questões de interesses e vantagens;entretanto, não exclui toda consideração para com magnitudes e proporções. Na linguagem das Escrituras, pecados são dívidas (Mt 6.12); o sangue de Cristo é um preço e o povo de Deus é comprado (1 Co 6.20; 1 Pe 1.18). Esta linguagem é, sem dúvida, figurativa, mas não seria apropriada se a justiça comercial (a que pertence os termos dívida, preço e comprado) não tivessem alguma analogia para com a justiça distributiva, que requereu o sacrifício de Cristo.

No caso que apresentamos como ilustração, cada cúmplice no assassinato é tido como culpado, porquanto cada um tinha a plena intenção do crime. A justiça, olhando o crime pela intenção, considera cada um deles culpado e requer que a penalidade seja infligida sobre todos. Não se admite que apenas um dos cúmplices receba a punição que cabe a todos; a justiça pesa para cada um a penalidade que lhe é devida e o montante da penalidade de acordo com o montante do crime.

Examinado desta maneira, vemos não ser conclusivo o argumento que diz ficar reduzida a expiação a mera transação comercial, caso prevaleça a noção de que o total de sofrimentos de Cristo corresponde ao total dos pecados expiados. Se o sacrifício de Cristo exclui qualquer consideração para com o montante de pecados a serem expiados, esta exclusão não advém de princípios abstratos da justiça distributiva, como diferenciados dos princípios da justiça comercial, mas de algo peculiar a esta grande transação que foi a morte de Cristo. Jamais ocorreu outra transação com a qual pudesse ser comparada. Foram a sabedoria e a justiça de Deus que decidiram este caso, e a decisão foi correta e justa. Cristo realmente suportou tanto sofrimento quanto necessário para expiar os pecados que sobre Ele foram lançados. Até onde sabemos, no tribunal celeste jamais se estabeleceu uma conclusão para a questão de quanto sofrimento seria necessário, se Cristo tivesse morrido para expiar apenas um pecado. Se nós presunçosamente decidimos a questão por nós mesmos, estamos em perigo de nos imiscuirmos naquelas coisas que não pertencem a nós, mas a Deus. Se as Sagradas Escrituras nada nos ensinam a respeito do assunto, não deveríamos procurar ser mais sábios do que aquilo que está escrito.

As Escrituras, até onde sei, não contém nenhuma prova para essa hipótese, isto é, que a quantidade de sofrimento necessária para fazer um sacrifício de expiação, não é aumentada nem diminuída pela quantidade de pecado a ser expiada. O melhor argumento a seu favor é tirado de Hebreus 9 e 10, onde é ensinado que, se os sacrifícios da antiga dispensação tivessem sido eficazes, não haveria necessidade de terem sido repetidos. Isto parece dar a entender o princípio de que um sacrifício pelo pecado, uma vez consumado, será suficiente para todo o pecado, não importa quanto pecado possa ser multiplica por eras e eras. Este princípio, uma vez estabelecido, confirmará a hipótese aduzida. Porém, a cláusula "não teriam cessado de ser oferecidos" pode tomada sem o ponto de interrogação que aparece no final do versículo (Hb 10.2), e assim o argumento do escritor sagrado passa a ser outro, isto é, que os sacrifícios da dispensação do Velho Testamento, se eficazes, teriam continuado a ser oferecidos de ano a ano, fazendo a expiação de cada ano que passava; e não teriam sido suplantados por uma nova aliança, conforme o Senhor tinha predito mediante o profeta. Interpretado dessa maneira, o argumento deste versículo ao invés de dar comprovação definitiva à hipótese já mencionada, subverte-a. Porém, se a causa for lida incluindo-se o ponto de interrogação, ainda assim, pode ser entendida como referindo-se à recordação, de ano em ano, continuamnete, dos mesmos pecados que já uma vez tinham sido expiados. Ora, se os pecados de um ano tinham sido expiados, por que deveriam exatamente os mesmos pecados serem trazidos à lembrança no segundo, terceiro e quarto anos, e por que a oferenda por esses pecados teria de ser repetida, se já o primeiro sacrifício tinha sido eficaz Examinando por este ângulo, vemos que o argumento do escritor sagrado não serve de comprovação para o princípio envolvido na hipótese levantada.

Se depois de examinarmos cuidadosamente essa hipótese, somos levados a abandoná-la ao invés de fazer dela um artigo de fé; e se a dificuldade que ela se propunha a resolver continua a nos deixar perplexos, podemos obter alívio, como somos compelidos a fazer em outros casos, recebendo a totalidade da verdade de Deus com base na autoridade de Deus, mesmo que a harmonia das partes da revelação não seja aparente ao nosso fraco entendimento. Recebidas desta maneira, as dificuldades teológicas fornecem uma oportunidade para o exercício de confiança na veracidade divina; e o nosso estado mental nunca está melhor ou mais seguro do que quando, em simples fé, aceitamos sem discussão aquilo que Deus nos diz.

Até onde podemos julgar, o sofrimento de Cristo, quando visto à parte do propósito de Deus, eram em si mesmos tão bem adaptados para cobrir os pecados de Judas quanto os de Pedro. Porém, não podemos afirmar a mesma coisa de cada ato que Jesus realizou em Seu ministério como sacerdote. Sua intercessão por Pedro foi específica e eficaz, e como parte do Seu ofício sacerdotal pode ser incluída juntamente com Seus sofrimentos, como que formando uma perfeita e aceitável oferenda, que Ele, o grande Sumo Sacerdote, faz pelo Seu povo. A expiação ou reconciliação daí resultante, deve ser tão particular quanto as intercessões mediante as quais essa expiação foi solicitada.

Alguns afirmam que, se a expiação não é universal, nenhum pecador pode estar sob obrigação de crer em Cristo até que tenha certeza de ser um dos eleitos. Isto implica que nenhum pecador tem obrigação de crer no que Deus diz, a menos que saiba que Deus planeja salvá-lo. Mas Deus declara que não há salvação, senão através de Jesus Cristo, e todo pecador está na obrigação moral de crer nessa verdade. Se fosse revelado dos céus que, dentre toda a raça decaída, apenas um pecador seria salvo por Cristo, a obrigação de crer que não existe salvação fora de Cristo continuaria a mesma. Cada pecador a quem essa revelação fosse feita estaria obrigado a olhar para Cristo, como sua única possível esperança e a entregar a si mesmo àquela misericórdia soberana, pela qual alguém da raça justamente condenada seria salvo. Contudo, a abundante misericórdia de nosso Deus não ficará confinada à salvação de apenas um pecador; ela irá trazer muitos filhos à glória, mediante os sofrimentos de Jesus, o Autor da nossa salvação. Ainda assim, todo o pecador que confia em Cristo para a salvação tem a obrigação de entregar-se, sem reservas, à soberana misericórdia de Deus. Se ele exige alguma garantia prévia de estar incluído no número dos eleitos, não está se rendendo completamente a Deus, como um pecador culpado deve fazer. O evangelho leva cada pecador a se prostrar aos pés do grande Soberano, esperando encontrar da parte dEle misericórdia, à maneira que Ele bem entender. O evangelho é pervertido quando estes termos são rebaixados. Os ofensores são chamados a virem a Deus em rendição absoluta e incondicional, e este chamamento universal se harmoniza precisamente com a doutrina da redenção específica.

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