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26 de mar. de 2012

Regeneração ou Manipulação humana? - Josemar Bessa


"Porque assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu, eu mesmo, procurarei pelas minhas ovelhas, e as buscarei." 
Ezequiel 34:11



27 de set. de 2011

A Regeneração Precede a Fé - R.C. Sproul



Um dos momentos mais dramáticos em minha vida, na formação de minha teologia, ocorreu em uma sala de aula de um seminário. Um de meus professores foi ao quadro negro e escreveu estas palavras em letras garrafais:

A REGENERAÇÃO PRECEDE A FÉ
Aquelas palavras foram um choque para o meu sistema. Eu tinha entrado no seminário crendo que a obra principal do homem para efetivar o novo nascimento era a fé. Eu pensava que nós tínhamos que primeiro crer em Cristo, para então nascermos de novo. Eu uso as palavras "para então" aqui por uma razão. Eu estava pensando em termos de passos que deviam ocorrer em uma certa seqüência. Eu colocava a fé no princípio. A ordem parecia algo mais ou menos assim:
"Fé - novo nascimento -justificação."
Eu não tinha pensado sobre esse assunto com muito cuidado. Nem tinha atentado cuidadosamente às palavras de Jesus a Nicodemus. Eu presumia que mesmo sendo um pecador, uma pessoa nascida da carne e vivendo na carne, eu ainda tinha uma pequena ilha de justiça, um pequeno depósito de poder espiritual remanescente em minha alma para me capacitar a responder ao Evangelho sozinho. Possivelmente eu tinha sido confundido pelo ensino da Igreja Católica Romana. Roma, e muitos outros ramos do Cristianismo, tem ensinado que a regeneração é graciosa; ela não pode acontecer aparte da ajuda de Deus.
Nenhum homem tem o poder para ressuscitar a si mesmo da morte espiritual. A divina assistência é necessária. Esta graça, de acordo com Roma, vem na forma do que é chamado graça preveniente. "Preveniente" significa que ela vem antes de outra coisa. Roma adiciona a esta graça preveniente o requerimento de que devemos "cooperar com ela e assentir diante dela", antes que ela possa atuar em nossos corações.
Esta concepção de cooperação é na melhor das hipóteses uma meia verdade. Sim, a fé que exercemos é nossa fé. Deus não crê por nós. Quando eu respondo a Cristo, é a minha resposta, minha fé, minha confiança que está sendo exercida. O assunto, contudo, se aprofunda. A questão ainda permanece: "Eu coopero com a graça de Deus antes de eu nascer de novo, ou a cooperação ocorre depois?" Outro modo de fazer esta pergunta é questionar se a regeneração é monergista ou sinergista. Ela é operativa ou cooperativa? É eficaz ou dependente? Algumas destas palavras são termos teológicos que requerer maior explanação.

MONERGISMO E SINERGISMO
Uma obra monergística é uma obra produzida por uma única pessoa. O prefixo mono significa um. A palavra erg refere-se a uma unidade de trabalho. Palavras como energia são construídas com base nessa raiz. Uma obra sinergística é uma que envolve cooperação entre duas ou mais pessoas ou coisas. O prefixo sun significa "juntamente com".
Eu faço esta distinção por um razão. O debate entre Roma e Lutero foi travado sobre este simples ponto. A questão era esta: A regeneração é uma obra monergística de Deus ou uma obra sinergística que requer cooperação entre homem e Deus? Quando meu professor escreveu "A regeneração precede a fé" no quadro negro, ele estava claramente tomando o lado da resposta monergística. Depois de uma pessoa ser regenerada, esta pessoa coopera pelo exercício de sua fé e confiança. Mas o primeiro passo é a obra de Deus e de Deus tão-somente.
A razão pela qual não cooperamos com a graça regeneradora antes dela agir sobre nós e em nós é que nós não podemos. Não podemos porque estamos mortos espiritualmente. Não podemos assistir o Espírito Santo na vivificação de nossas almas para a vida espiritual, da mesma forma que Lázaro não podia ajudar Jesus a ressuscitá-lo dos mortos.
Quando comecei a lutar com o argumento do Professor, fiquei surpreso ao descobrir que o estranho som de seu ensino não era novidade. Agostinho, Martinho Lutero, João Calvino, Jonathan Edwards, George Whitefield - até o grande teólogo medieval Tomás de Aquino ensinaram esta doutrina. Tomás de Aquino é o Doctor Angelicus da Igreja Católica Romana. Por séculos seu ensino teológico era aceito como dogma oficial pela maioria dos Católicos. Então, ele era a última pessoa que eu esperava sustentar tal visão da regeneração. Todavia Aquino insistiu que a graça regeneradora é uma graça operante, e não uma graça cooperativa. Aquino falou da graça preveniente, mas ele falou de uma graça que vem antes da fé, que é a regeneração.
Estes gigantes da história Cristã derivaram a visão deles das Sagradas Escrituras. A frase chave na Carta de Paulo aos Efésios é esta: "estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)" (Efésios 2:5). Aqui Paulo localiza o tempo em que a regeneração ocorre. Ela ocorreu "quando estávamos ainda mortos". Com um único raio de revelação apostólica foram esmagadas, total e completamente, todas as tentativas e entregar a iniciativa na regeneração aos homens. Novamente, homens mortos não cooperam com a graça. A menos que a regeneração ocorra primeiro, não há possibilidade de fé.
Isso não diz nada de diferente do que Jesus disse a Nicodemus. A menos que um homem nasça de novo primeiro, ele não pode ver ou entrar no reino de Deus. Se nós cremos que a fé precede a regeneração, então nós colocamos nossos pensamentos, e, portanto, nós mesmos, em direta oposição não só aos gigantes da história Cristã, mas também ao ensino de Paulo e do nosso próprio Senhor Jesus Cristo.
(do livro, O Mistério do Espírito Santo, Tyndale House, 1990)

Meu Comentário:

Outras passagens na Bíblia que claramente ensinam que a regeneração precede a fé:
1 João 5:1 - "Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo, é o nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou, ama também ao que dele é nascido.", João 1:13, Rom 9:16
João 6:63,65 "O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida. E continuou: Por isso vos disse que ninguém pode vir a mim, se pelo Pai lhe não for concedido".
http://www.monergism.com/thethreshold/articles/onsite/sproul01.html

Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto
Cuiabá-MT, 18 de Março de 2003.

18 de mar. de 2011

Regeneração - REGENERAÇÃO é uma obra de Deus na qual ele muda tal disposição má numa que se deleita nas leis e nos preceitos de Deus (Ezequiel 11:19-20, 36:26-27), e isso resulta no que significa uma ressurreição espiritual. Regeneração é uma transformação drástica e permanente no nível mais profundo da personalidade e intelecto de alguém, que podemos chamar de uma RECONSTRUÇÃO RADICAL.Regeneração, ou ser “nascido de novo”, ocorre em conjunção com o chamado eficaz de Deus para com os seus eleitos (1 Pedro 1:23; Tiago 1:18), e os capacita a responder em fé e arrependimento a Cristo. Isso significa que a regeneração precede a fé; isto é, uma pessoa não nasce de novo pela fé, mas ela é capacitada a crer precisamente porque Deus a regenerou primeiro.









A Obra do Espírito Santo na Regeneração
por
John Owen


A obra do Espírito Santo na regeneração de almas precisa ser estudada e claramente compreendida pelos pregadores do evangelho, e por todos aqueles a quem a Palavra de Deus é pregada. É pelos verdadeiros pregadores do evangelho que o Espírito Santo regenera as pessoas (lCo.4:15; Fm.10; At.26: 17,18). Por isso, todos aqueles que pregam o evangelho precisam conhecer totalmente a regeneração para que possam com Deus e o Seu Espírito trazer almas ao “novo nascimento”. É também dever de todos os que ouvem a Palavra de Deus estudar e entender a regeneração (2Co.13:5).


O grande trabalho do Espírito Santo é a obra de regeneração (Jo.3:3-6). Certa noite Nicodemus, um mestre de Israel, veio até Jesus, que lhe disse: “se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. (...) O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito”. O nosso Senhor tendo o conhecimento de que a fé e a obediência a Deus, e a nossa aceitação da parte de Deus, dependem de um novo nascimento, fala a Nicodemus do quão necessário é nascer de novo. Nicodemus fica surpreso com isso, e assim Jesus segue adiante a ensinar-lhe que obra de regeneração é esta. Ele diz: “quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus” (v.5).

A regeneração, portanto, ocorre por meio “da água e do Espírito”. O Espírito Santo faz a obra de regeneração na alma do homem, da qual a água é o sinal exterior. Este símbolo externo é um solene compromisso e selo do pacto que até então lhes vinha sendo anunciado por João Batista. A água pode também significar o próprio Espírito Santo.
João nos fala que todos aqueles que receberam a Cristo só o fizeram por terem nascido de Deus (Jo. 1:12,13). Nem a hereditariedade, nem a vontade do homem podem produzir um novo nascimento. A obra como um todo é atribuída tão-somente a Deus (veja também Jo.3:6; Ef.2:1,5; Jo.6:63; Rm.8:9,10; Tt.3:4-6).
É sempre importante lembrar que toda a Trindade está envolvida nesta obra de regeneração. Ela se origina na bondade e no amor de Deus como Pai (Jo.3:16; Ef.1:3-6), da Sua vontade, propósito e conselho. É uma obra do Seu amor e graça. Jesus Cristo nosso Salvador a adquiriu para pecadores (Ef. 1:6). Mas o verdadeiro “lavar regenerador e renovador do Espírito Santo” nas nossas almas é obra do Espírito Santo (Tt.3:4-6).
Todavia o meu presente objetivo é confirmar os princípios fundamentais da verdade concernente a essa obra do Espírito Santo que vêm sendo negados e combatidos.
A REGENERAÇÃO NO VELHO TESTAMENTO

No Velho Testamento a obra de regeneração ocorria desde a fundação do mundo, e foi registrada nas Escrituras. Contudo o seu conhecimento era muito vago comparado ao conhecimento que temos dela no evangelho.

Nicodemus, um importante mestre de Israel, declarou a sua ignorância quanto a isso. “Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer segunda vez?”. Cristo maravilhou-se de que um mestre de Israel não conhecesse esta doutrina da regeneração. Estava nitidamente declarado nas promessas especificas do Velho Testamento, como também em outras passagens (conforme veremos), que Deus haveria de circuncidar os corações do Seu povo, tirar-lhes o coração de pedra e dar-lhes um coração de carne. Em sua ignorância os mestres de Israel imaginavam que a regeneração significava apenas uma reforma de vida. De modo semelhante muitos hoje consideram a regeneração como nada mais que o esforço para se levar uma vida moral. Mas se a regeneração significar nada mais do que se tornar um novo homem moral — algo a que todos, tanto mais ou menos, recomendam — dessa forma o nosso Senhor Jesus Cristo, bem mais do que esclarecer a Nicodemus sobre esta questão, a obscureceu mais ainda.
O Novo Testamento ensina claramente que o Espírito Santo faz uma obra secreta e misteriosa nas almas dos homens. Agora, se esta obra secreta e misteriosa for na verdade apenas uma reforma moral que capacita os homens a viverem melhor, se for apenas um convencimento externo para abandonar o mal e se fazer o bem, então, a doutrina da regeneração ensinada por Cristo e todo o Novo Testamento, é definitivamente incompreensível e sem sentido.
A regeneração e a doutrina da regeneração existiram no Velho Testamento. Os eleitos de Deus, de qualquer geração, nasceram de novo pelo Espírito Santo. Mas antes da vinda de Cristo, todas as coisas dessa natureza, estavam “desde o princípio do mundo, ocultas em Deus” (Ef.3:9 — tradução literal NKJV).
Mas agora chegou o grande médico, aquele que haveria de curar a terrível ferida das nossas naturezas pela qual estávamos mortos em nossos “delitos e pecados”. Ele abre a ferida, mostra-nos o quão é terrível e revela a situação de morte que ela trouxe sobre nós. Ele assim o faz para que sejamos verdadeiramente agradecidos quando nos curar. Assim pois, nenhuma doutrina é mais completa e claramente ensinada no evangelho do que esta doutrina da regeneração.
Quão corrompidos, portanto, são os que a negam, desprezam e rejeitam.
A CONSTANTE OBRA DO ESPÍRITO

Os eleitos de Deus não eram regenerados de uma maneira no Velho Testamento e de outra completamente diferente, pelo Espírito Santo, no Novo Testamento. Todos eram regenerados de um mesmo modo pelo mesmo Espírito Santo. Aqueles que foram milagrosamente convertidos, como Paulo, ou que em suas conversões lhes foram concedidos dons miraculosos, como muitos dos cristãos primitivos, não foram regenerados de um modo diferente de nós mesmos, que também temos recebido esta graça e privilégio.

Os dons miraculosos do Espírito Santo nada tinham a ver com a Sua obra de regeneração. Não eram a comprovação de que alguém havia sido regenerado. Muitos dos que possuíram dons miraculosos jamais foram regenerados; outros que foram regenerados jamais possuíram dons miraculosos.
É também o cúmulo da ignorância supor que o Espírito Santo no passado regenerava pecadores miraculosamente, mas que agora Ele não o faz de modo milagroso, mas por persuadir-nos que não é razoável que não nos arrependamos dos nossos pecados.
Jamais cairemos neste erro se considerarmos o seguinte:
a) A condição de todos os não-regenerados é exatamente a mesma. Uns não são mais não-regenerados que outros. Todos os homens são inimigos de Deus. Todos estão sob a Sua maldição (Sl.51:5;Jo.3:5, 36; Rm.3:19; 5:15-18; Ef.2:3; Tt.3:3,4).
b) Há variados níveis de malignidade nos não-regenerados, assim como há diversos níveis de santidade entre os regenerados. Todavia o estado de todos os não-regenerados -é o mesmo. Todos carecem de que se faça neles a mesma obra do Espírito Santo.
c) O estado a que os homens são trazidos pela regeneração é o mesmo. Nenhum é mais regenerado do que outro, contudo uns podem ser mais santificados que outros. Aqueles gerados por pais naturais nascem de um mesmo modo, embora alguns logo superem os outros em perfeições e habilidades. O mesmo também ocorre com todos os que são nascidos de Deus.
d) A graça e o poder pelos quais esta obra de regeneração é operada em nós são os mesmos. A verdade é que aqueles que desprezam o novo nascimento, fazem-no porque desprezam a nova vida. Aquele que odeia a idéia de viver para Deus, odeia a idéia de ser nascido de Deus. No final, entretanto, todos os homens serão julgados por esta pergunta: “Você nasceu de Deus?”.
A COMPREENSÃO ERRADA SOBRE A REGENERAÇÃO
Em primeiro lugar regeneração não é meramente ser batizado e dizer: “eu me arrependi”. A água do batismo é apenas um sinal externo (lPe.3:21). A água mesmo só pode molhar e lavar alguém da “imundícia da carne”. Mas como um sinal exterior ela significa “uma boa consciência para com Deus, por meio da ressurreição de Jesus Cristo” (lPe.3:21. Veja Hb.9:14; Rm.6:3-7). O apóstolo Paulo faz claramente a distinção entre a ordenança exterior e o ato de regeneração em si mesmo (Gl.6:15). Se batismo acompanhado de confissão de arrependimento for regeneração, então todos aqueles que foram batizados e se confessaram arrependidos têm de ser regenerados. Mas é claro que isso não é assim (veja At.8: 13 com os vv. 21, 23).
Em segundo lugar a regeneração não é uma reforma moral da vida exterior e do comportamento. Por exemplo, suponhamos uma tal reforma exterior pela qual alguém volta-se de fazer o mal para fazer o bem. Deixa de roubar e passa a trabalhar. Não obstante, haja o que houver de justiça real nessa mudança moral exterior de comportamento, ela não procede de um novo coração e de uma nova natureza que ama a justiça. É tão-somente pela regeneração que um corrupto e pecaminoso inimigo da justiça pode ser trazido a amá-la e a deleitar-se em praticá-la. Há os que escarnecem da regeneração como sendo inimiga da moralidade, justiça e reforma, mas um dia hão de descobrir o quanto estão errados.
A idéia de que a regeneração nada mais é do que uma reforma moral da vida, procede da negação do pecado original e do fato de sermos maus por natureza. Se não fôssemos maus por natureza, se fôssemos bons no fundo do nosso coração, então não haveria necessidade de nascermos de novo.
A REGENERAÇÃO NÃO PRODUZ EXPERIÊNCIAS SUBJETIVAS.
A regeneração nada tem a ver com enlevos extraordinários, êxtases, ouvir vozes celestiais ou com qualquer outra coisa do tipo. Quando o Espírito Santo faz a Sua obra de regeneração nos corações dos homens, Ele não vem sobre eles com grandes e poderosos sentimentos e emoções aos quais não podem resistir.
Ele não se apodera dos homens como os maus espíritos se apossam das suas vitimas. Toda a Sua obra pode ser racionalmente compreendida e explicada por todo aquele que crê na Escritura e recebeu o Espírito da verdade que o mundo não pode receber. Jesus disse a Nicodemus: “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai”, assim é com a obra de regeneração do Espírito Santo.
A NATUREZA DA REGENERAÇÃO
Regeneração é colocar na alma uma nova lei de vida que é verdadeira e espiritual, que é luz, santidade e justiça, que leva à destruição de tudo o que odeia a Deus e luta contra Ele. A regeneração produz uma milagrosa mudança interior do coração. “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura”. A regeneração não se dá pelos sinais exteriores de uma mudança moral do coração e é muito distinta deles (Gl.5:6; 6:15).
A regeneração é um ato onipotente de criação. Um novo princípio ou lei é criado em nós pelo Espírito Santo (Sl.51:10; Ef.2:10). Esta nova criação não é um novo hábito formado em nós, mas uma nova capacidade e faculdade. É chamada, portanto, de “natureza divina” (2Pe. 1:4). Esta nova criação é o revestir de uma nova capacidade e faculdade criada em nós por Deus e que traz a Sua imagem (Ef.4:22-24).
A regeneração renova as nossas mentes. Ser renovado no espírito de nossas mentes significa que as nossas mentes possuem agora uma nova e salvadora luz sobrenatural que as capacita a pensarem e a agirem espiritualmente (Ef.4:23; Rm.12:2). O crente é renovado em “conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl.3:10).
O NOVO HOMEM
Esta capacidade e faculdade nova produzida em nós pela regeneração é chamada de “novo homem”, porque envolve uma completa e total mudança da alma, de onde procede toda ação espiritual e moral (Ef.4:24). Este “novo homem” é contraposto ao “velho homem” (Ef.4:22,24). Este “velho homem” é a nossa natureza humana corrompida que tem a capacidade e faculdade de produzir pensamentos e atos malignos. O “novo homem” está capacitado e habilitado a produzir atos religiosos, espirituais e morais (Rm.6:6). Denomina-se de “novo homem” porque é uma “nova criação de Deus” (Ef.l:19; 4:24; Cl.2:12, 13; 2Ts.1:11).
Este “novo homem” é criado de imediato, num átimo. É por isso que a regeneração não pode ser uma mera reforma de vida, que é o trabalho de toda uma vida (Ef.2:10). É a obra de Deus em nós que antecede todas as nossa obras para com Deus. Somos feitura de Deus, criados para produzir boas obras (Ef.2: 10).
Assim pois não podemos produzir boas obras aceitáveis a Deus sem que primeiro Ele produza esta nova criação em nós. Está dito que este “novo homem” é “criado segundo Deus [i.e., à Sua imagem], em justiça e retidão procedentes da verdade” (Ef.4:24). A imagem de Deus no primeiro homem não foi uma reforma de vida. Nem foi um padrão de bom proceder. Adão foi criado à imagem de Deus antes que fizesse qualquer boa obra. Esta imagem de Deus era a capacidade e faculdade dada a Adão para viver uma vida tal que manifestasse verdadeiramente o caráter santo e justo de Deus. Tal capacidade e faculdade foi dada a Adão antes mesmo dele começar a viver para Deus. É verdadeiramente indispensável que o mesmo ocorra também conosco. Primeiro, a imagem de Deus, a qual é o “novo homem”, é novamente criada em nós. Então podemos começar mais uma vez a apresentar em nossas vidas o caráter santo e justo de Deus (Lc.6:43; Mt.7:18).
A ALIANÇA DE DEUS
Deus já nos tem dito como nos trata em Sua aliança (Ez.36:25-27; Jr.31:33; 32:39,40). Ele primeiro lava e limpa a nossa natureza; arranca o nosso coração de pedra e dá-nos um coração de carne; escreve as Suas leis em nossos corações e coloca o Seu Espírito em nós para nos capacitar a guardar essas leis. É isso o que significa regeneração. Que também é descrita como o santificar, o tornar santo todo nosso espírito, alma e corpo (lTs.5:23).
COMPROVADO PELA ESCRITURA
O Espírito Santo não opera de qualquer outro modo senão por aquilo que nos mostra a Escritura. Tudo que alega ser obra de regeneração Sua, precisa ser comprovado pela Escritura. O Espírito Santo, por ser onisciente, conhece as nossas naturezas perfeitamente, e por isso sabe com exatidão como operar nelas sem as ferir ou danificar, sem forçá-las de modo algum a concordar com a Sua vontade.
A pessoa ao ser regenerada, jamais, em momento algum, sente que está sendo malignamente forçada contra a sua vontade. A despeito disso, muitos que são verdadeiramente regenerados têm sido tratados pelo mundo como se fossem loucos, ou algum tipo de fanático religioso (2Rs.9:11; Mc.3:21; At.26:24, 25).
A obra do Espírito Santo na regeneração de almas precisa ser estudada e claramente compreendida pelos pregadores do evangelho, e por todos aqueles a quem a Palavra de Deus é pregada. É pelos verdadeiros pregadores do evangelho que o Espírito Santo regenera as pessoas (lCo.4:15; Fm.10; At.26: 17,18). Por isso, todos aqueles que pregam o evangelho precisam conhecer totalmente a regeneração para que possam com Deus e o Seu Espírito trazer almas ao “novo nascimento”. É também dever de todos os que ouvem a Palavra de Deus estudar e entender a regeneração (2Co.13:5).
A regeneração foi-nos revelada por Deus (Dr.29:29). Assim pois não estudar nem tentar compreender esta grande obra é revelar a nossa própria estultícia e loucura. Enquanto não tivermos nascido de Deus nada poderemos fazer que Lhe agrade, nem obtemos dEle quaisquer consolações, e nada somos capazes de entender a Seu respeito ou sobre o que Ele está realizando no mundo.
Há o grande perigo de que os homens possam estar enganados quanto à regeneração e que estejam, portanto, eternamente perdidos. Crendo erroneamente que podem obter o céu sem que lhes seja necessário nascer de novo, ou que havendo nascido de novo podem continuar a levar uma vida pecaminosa. Tais opiniões contradizem claramente o ensinamento do nosso Senhor e dos apóstolos (Jo.3:5; 1Jo.3:9).


Fonte: Jornal Os Puritanos – Ano X – No 04 – Out./Nov./Dez./2002
(Extraído do Livro “O Espírito Santo”, do teólogo puritano John Owen (O Príncipe dos Puritanos), publicado pela Banner Of Truth, cap 8, pg 43-51.
Adaptado das suas obras para uma linguagem contemporânea por R.J.K. Law.)
 Regenerados
por
Vincent Cheung
 
Nós podemos definir a natureza pecaminosa do homem como uma forte disposição da mente para o mal (Colossenses 1:21; Romanos 8:5-7). REGENERAÇÃO é uma obra de Deus na qual ele muda tal disposição má numa que se deleita nas leis e nos preceitos de Deus (Ezequiel 11:19-20, 36:26-27), e isso resulta no que significa uma ressurreição espiritual. Regeneração é uma transformação drástica e permanente no nível mais profundo da personalidade e intelecto de alguém, que podemos chamar de uma RECONSTRUÇÃO RADICAL. [35] Os compromissos mais básicos do indivíduo são voltados de objetos e princípios abomináveis, que ele uma vez serviu, para Deus. Essa mudança no primeiro princípio de pensamento e conduta de uma pessoa gera um efeito replicante que transforma o espectro inteiro de sua cosmovisão e estilo de vida.
Regeneração, ou ser “nascido de novo”, ocorre em conjunção com o chamado eficaz de Deus para com os seus eleitos (1 Pedro 1:23; Tiago 1:18), e os capacita a responder em fé e arrependimento a Cristo. Isso significa que a regeneração precede a fé; isto é, uma pessoa não nasce de novo pela fé, mas ela é capacitada a crer precisamente porque Deus a regenerou primeiro. Fé não é a pré-condição da regeneração; antes, a regeneração é a pré-condição da fé.
Uma razão pela qual muitos cristãos pensam que a regeneração ocorre pela fé é por que eles têm confundido regeneração com “salvação” em geral, e “justificação” em particular. Quando a palavra “salvação” é aplicada ao pecador, ela é um termo geral que pode implicar diversas coisas, tais como os itens que estamos discutindo nesse capítulo [*]. Por outro lado, na justificação Deus confere ao eleito a justiça legal merecida por Cristo em sua obra redentora. A Bíblia ensina que nós somos justificados pela fé, e não que nós somos regenerados pela fé. A confusão acontece quando alguém considera tanto a justificação como a regeneração como significando “salvação”.
Jesus diz: “Digo-lhe a verdade: Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo” (João 3:3). A palavra “ver” aqui se refere principalmente à capacidade de entender, ou “investigar”. Paulo escreve em 2 Coríntios 4:4: “O deus desta eracegou as mentes dos descrentes, para que não possam ver a luz do evangelho da glória de Cristo”. Se eles não podem ver o evangelho, então eles não podem aceitá-lo, o que conseqüentemente torna impossível que eles sejam salvos.
Mateus 13:15 estabelece um ponto similar: “Pois o coração deste povo se tornou insensível; de má vontade ouviram com seus ouvidos, e fecharam seus olhos. Se assim não fosse, poderiam ver com os olhos, ouvir com os ouvidos, entender com o coração e se converter, e eu os curaria”. Ou, como Marcos 4:12 diz: “De outro modo, poderiam converter-se e ser perdoados!”. Uma pessoa entenderásomente quando for capaz de ver, e somente quando ela entender é que ela será capaz de se voltar, isto é, se “converter” (Mateus 13:15). Se é necessário “ver” antes que alguém tenha fé, e se a capacidade de “ver” é somente possível após a regeneração (João 3:3), então naturalmente a regeneração vem antes da fé.
Revisando, Deus escolheu um número de indivíduos para receber a salvação. Após isso, Cristo veio a esta terra e pagou o preço do pecado pelos eleitos. Então, cada um dos eleitos é intimado a crer no evangelho nos tempos específicos designados por Deus. Contudo, visto que os eleitos nascem como pecadores, há presente dentro deles uma forte disposição para o mal, tornando-os incapazes e indispostos para responder. Portanto, Deus regenera os pecadores eleitos assim como ele os intima, e coloca em cada um deles uma nova natureza que é disposta para com Deus e a justiça. Assim, a regeneração é uma obra MONERGÍSTICA – ela é uma obra de Deus que produz seus efeitos sem qualquer cooperação da pessoa que está sendo salva.
João 1:12-13 faz referência à natureza monergística da regeneração: “Mas a todos quantos o receberam, a eles ele deu o direito de se tornarem filhos de Deus, àqueles que quem crêem em seu nome, que não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (NASB). A passagem indica que a regeneração não ocorre por se pertencer a uma descendência natural particular, nem ocorre por “decisão humana” (v. 13, NIV). A visão popular da regeneração é que através de uma “decisão” por Cristo, o homem pode nascer de novo, e assim, ser salvo do pecado. Contudo, a Escritura ensina que a regeneração é uma obra totalmente de Deus, que ele efetua em seus escolhidos, e que não ocorre através da vontade do homem: “O vento sopra onde quer. Você o ouve, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todos os nascidos do Espírito” (João 3:8).
É fácil entender porque a regeneração deve preceder a fé se guardarmos em mente que o homem está espiritualmente morto antes da regeneração (Efésios 2:1; Romanos 3:10-12, 23). Por causa da hostilidade da mente às coisas de Deus antes da regeneração, os eleitos por si mesmos nunca chegariam à fé em Cristo quando o evangelho lhes fosse apresentado. É Deus quem age primeiro, e tendo mudado a disposição deles de má para boa, e das trevas para a luz, eles então respondem ao evangelho pela fé em Cristo, e por ela eles se tornam justificados aos olhos de Deus. Atos 16:14 registra a conversão de Lídia, e o versículo diz que foi Deus quem primeiro “abriu seu coração” para que ela pudesse “responder à mensagem de Paulo”.
(Teologia Sistemática, páginas 188-189)


NOTAS:
[35] - Ela é “radical” no sentido de que ela afeta a própria raiz da personalidade de uma pessoal.

[*] - Nota do tradutor: Os assuntos tratados no capítulo são: eleição, chamado, regeneração, conversão, justificação, adoção, santificação, preservação.


Nota sobre o autor: Vincent Cheung é o presidente da Reformation Ministries International [Ministério Reformado Internacional]. Ele é o autor de mais de vinte livros e centenas de palestras sobre uma vasta gama de tópicos na teologia, filosofia, apologética e espiritualidade. Através dos seus livros e palestras, ele está treinando cristãos para entender, proclamar, defender e praticar a cosmovisão bíblica como um sistema de pensamento compreensivo e coerente, revelado por Deus na Escritura. Ele e sua esposa, Denise, residem em Boston, Massachusetts. [http://www.rmiweb.org/ ]

Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto
Cuiabá-MT, 26 de Agosto de 2005.
Fonte:Monergismo 


 Série Livros para Ler- [Download Livro] 
A Regeneração ou Novo Nascimento - A. W. Pink



28 de jan. de 2011

Regeneração - Asahel Nettleton




“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (João 1.12-13)

Estes versículos ensinam uma doutrina simples mas importante: aqueles que recebem a Cristo . aos quais foi dado o poder para tornarem- se filhos de Deus e crêem no nome de Cristo . foram nascidos de Deus. Em outras palavras, uma pessoa se torna verdadeiro crente por meio de uma especial aplicação de poder por parte do Todo poderoso, a fim de mudar seu coração. A expressão .nasceram... de Deus., freqüentemente utilizada pelos escritores do Novo Testamento, expressa linguagem figurada. Sua adequação, quando aplicada às coisas espirituais, resulta da analogia que existe entre o início de nossa existência física e de nossa vida espiritual. Os crentes são filhos de Deus; isto precisa ser entendido em um sentido peculiar. Todos os homens são criados por Deus e dEle recebem suas capacidades naturais; neste sentido todos são filhos de Deus. Mas, quando a Bíblia aplica a expressão .filhos de Deus. aos crentes, para distingui-los das outras pessoas, ela o faz para ressaltar um relacionamento que Deus não tem com os demais seres humanos. E somente Ele é o autor da regeneração, pela qual os crentes se tornam seus filhos e é dito que eles são nascidos de Deus. As Escrituras afirmam que os crentes foram gerados por Deus, em comparação ao relacionamento que existe entre os pais terrenos e seus filhos.

O objetivo destes versículos é mostrar que nosso relacionamento com Deus, como seus filhos espirituais, foi produzido exclusivamente por meio de seu soberano poder. A princípio, estes versículos foram adaptados para oporem-se aos preconceitos carnais dos judeus. A opinião comum destas pessoas era que todos os descendentes de Abraão eram herdeiros das promessas divinas e tinham o direito à vida eterna. Este conceito foi consistentemente combatido por Cristo e seus apóstolos. Deixando de lado a tentativa de determinar o significado exato da afirmativa .os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus., observamos que havia três maneiras de pessoas serem consideradas filhos de Abraão: por descendência natural, por meio de um relacionamento ilícito e por adoção. Independentemente da maneira, os judeus imaginavam que se tornava um filho de Deus aquela pessoa que se tornava filho de Abraão. O bem-conceituado Dr. Lightfoot propôs que o objetivo do apóstolo João era aniquilar as falsas esperanças dos judeus, afirmando que, se alguém havia se tornado filho de Abraão através de alguma destas maneiras, isto não o transformava em filho de Deus. Outro tipo de nascimento é necessário; uma nova filiação, vinda do alto. Era preciso que Deus os fizesse nascer de novo. Qualquer que seja o significado específico destes versículos, a impressão geral e o objetivo específico do escritor sagrado é que todos os outros métodos de alguém tornar-se filho de Deus são falsos e imaginários, exceto o ser nascido de novo. Estas palavras foram escritas para combater as idéias predominantes naqueles dias, e hoje podemos utilizá-las de maneira semelhante.

Dentre todos os assuntos, aquele que se refere à nossa passagem da morte para a vida com certeza é o mais importante e interessante. Ter idéias claras e definidas sobre este assunto é crucial; errar no que concerne a ele equivale a um perigo terrível. Em certo sentido, todas as coisas pertencem a Deus. Ele é o Criador e Governador de tudo. Todos os poderes e capacidades que um homem possui procedem de Deus. Todos os meios da graça e ordenanças espirituais foram instituídas por Ele. Mas, quando as Escrituras falam sobre nascer de novo, elas querem dizer muito mais do que um homem ser influenciado por esses meios da graça e ordenanças espirituais, ao utilizar seus poderes e capacidades naturais. A fim de evitar uma compreensão errada sobre o assunto, afirmei no início que a regeneração é uma obra especial efetuada pelo poder do Todo poderoso. Os que erram neste assunto jamais tentaram negar abertamente que os crentes são nascidos de Deus, pois isto corresponderia a renunciar toda aparência de confiança nas Escrituras. Eles escolheram um método mais seguro para divulgarem suas opiniões: ao mesmo tempo que preservam as palavras dos autores sagrados, atacam e desprezam o significado das mesmas, de modo que a regeneração se torna uma simples aplicação de um rito externo ou uma persuasão da mente afetada de maneira comum, que resulta em uma reforma da moralidade.

Esclarecer o erro ajuda-nos a compreender a verdade. De maneira abreviada, consideraremos alguns conceitos errados sobre a regeneração e, em seguida, mostraremos o que significa ser nascido de Deus.

Não preciso gastar muito tempo esforçando-me para demonstrar que o batismo não é regeneração. Nada é tão evidente quanto o fato de que um rito exterior não pode mudar o coração. O batismo é apenas um sinal ou símbolo das salvadoras influências do Espírito Santo, e não a obra de regeneração. Tanto a Escritura quanto a experiência mostram que nem todas as pessoas batizadas são regeneradas, pois algumas delas em suas vidas e conversas não diferem do .mundo., que .jaz no Maligno.. Quanto a isto, precisamos apenas citar as palavras de um eminente teólogo inglês: .O ensino da regeneração através do batismo é a completa rejeição e desprezo da graça de nosso Senhor Jesus Cristo.; e acrescentou: ”A vaidade desta presunção tola destrói a graça do evangelho; é uma presunção forjada para apoiar os homens em seus pecados e ocultar lhes a necessidade de nascerem de novo e de se converterem a Deus. Entretanto, irmãos amados, não foi assim que aprendemos de Cristo.”

O absurdo de alterar assim o verdadeiro ensino sobre a regeneração e outras doutrinas semelhantes é tão palpável e grotesco, que pode ser detectado e percebido onde existe qualquer grau de conhecimento acerca da natureza da vida espiritual. Encontramos menor perigo em tais noções extravagantes do que naquelas que são mais sutis e sofisticadas.

Pelágio, no século IV, inventou e advogou um esquema de regeneração que, com poucas modificações, às vezes na fraseologia ou no acréscimo e diminuição de algumas partes, tem sido o método de quase todos os sectários, os quais se apartaram dos ensinos ortodoxos do evangelho. Em épocas diferentes, autores têm surgido em diversos países, levando adiante este ilusório ensino sobre o novo nascimento em termos elaborados por eles mesmos. E muitos que lêem seus escritos de maneira superficial têm sido enganados, acreditando neste falso conceito. O fato é que quase todo o sistema de ensinos fundamentado em noções obscuras e inadequadas sobre este importante assunto da regeneração é apenas um reflexo da heresia de Pelágio, universalmente condenada pela igreja dos primeiros séculos, que agora se apresenta em nova roupagem e, para assegurar sua aceitação, segue os padrões do mundo moderno.

Os principais aspectos do ensino de Pelágio e Armínio (ambos, em essência, ensinaram as mesmas coisas) são estes:

1. Deus não somente proclama e oferece de maneira semelhante a graça e a salvação a todos os homens, mas também o Espírito Santo é derramado de modo suficiente e igual sobre todos eles, para garantir-lhes a salvação, contanto que se aproveitem dos benefícios que lhes são concedidos;

2. Os preceitos e promessas do evangelho, além de serem bons e desejáveis em si mesmos, são tão adaptados à mente do homem natural e aos interesses da humanidade, que estes se inclinarão a recebê-los, a menos que sejam vencidos pelo preconceito e por uma vida habitual no pecado.

3. Pensar sobre as ameaças e promessas do evangelho é suficiente para remover os preconceitos e levar a pessoa a deixar a vida no pecado.

4. Aqueles que meditam com seriedade e consertam suas vidas têm a promessa do Espírito Santo e recebem direito para desfrutarem os benefícios da nova aliança.

Esta irreal declaração de princípios fundamentais, capaz de convencer mentes que não ponderam sobre estes assuntos, anula a própria essência da verdade do evangelho. Este sistema de doutrina preceitua que todos os homens são regenerados de igual modo, possuem a mesma medida do Espírito, e a diferença entre um e outro encontra- se totalmente em si mesmos, dependendo da maneira como eles se beneficiam das bênçãos outorgadas. Neste caso, regeneração significa uma reforma na vida, induzida por meio de persuasão moral ou iniciada como resultado de ser iluminado o entendimento e as emoções serem comovidas exclusivamente por meio da verdade divina. Se indagarmos de que modo neste sistema de doutrina a salvação resulta da graça divina, a resposta é que todos os meios de alguém se beneficiar das bênçãos recebidas são concedidos por Deus e, por conseguinte, constituem a graça.

Todo este sistema de doutrina resume-se no seguinte: Deus outorga as capacidades e a graça a todos os homens de maneira semelhante; e, tendo sido estas outorgadas, eles trabalham por sua própria salvação, sendo persuadidos a fazer isso por meio das promessas e ameaças do evangelho. A terrível ilusão causada por esse tipo de doutrina resulta de sua plausibilidade . tem aparência de verdade, mas está repleta de erros graves e perigosos.

Não tenho dúvidas de que o Espírito Santo utiliza-se da Palavra e de muitos outros instrumentos para trazer os pecadores a Cristo. Mas afirmar que os homens são naturalmente inclinados a aprovarem e obedecerem aos preceitos do evangelho, exceto quando algum tipo específico de pecado os impede, isso claramente contradiz o evangelho. Pelo contrário, como princípio fundamental o evangelho revela que todos os homens, por natureza, são filhos da ira e cegos no que se refere à luz da verdade divina; estão em inimizade com Deus e mortos em ofensas e pecados. A idéia de que o Espírito Santo é conferido a todos, de maneira suficiente para salvá-los, anula o conceito da graça especial e torna nascidos de Deus tanto uns quanto outros! O texto bíblico citado no início afirma que todos quantos receberam a Cristo e creram em seu nome foram nascidos de Deus. Se isto é verdade, outros que não O receberam não foram nascidos de Deus; portanto, não podemos dizer que as influências do Espírito são iguais para todos.

É uma grande pedra de tropeço, para muitos, o fato de que Deus outorga do seu Espírito mais para uma pessoa do que para outras. A fim de remover este preconceito, Pelágio e muitos depois dele têm sustentado o ensino de que todos os homens recebem os mesmos dons, para labutarem em favor de sua própria salvação. É lógico que tal ensino destrói o novo nascimento e o torna comum a todos os homens. De acordo com este ensino, Judas Iscariotes recebeu tanto da graça divina quanto o apóstolo Paulo; Acabe se vendeu à impiedade, mas o mesmo poderia ter feito Davi, o homem segundo o coração de Deus. Toda a diferença entre os homens deve-se a maneira diferente como eles se aproveitam de seus privilégios.

Sei que esse tipo de doutrina agrada a natureza caída; e a aceitação que ela tem desfrutado desde que foi pregada pela primeira vez comprova quão agradável é ao raciocínio do homem natural. Porém, nem as Escrituras nem a experiência nos oferecem qualquer razão para crermos nessa doutrina. Não duvido que o Espírito Santo luta com todos os homens que não estão condenados.

Reconheço que as ameaças e promessas do evangelho seriam suficientes para persuadir- nos a um viver santo, se nosso entendimento não estivesse obscurecido e nossas afeições não fossem depravadas. Entretanto, nego que a graça comum a todos nos torna filhos de Deus, ou que somos persuadidos a nos tornarmos cristãos sem haver uma especial realização divina; ou que todos os homens recebem a mesma medida do Espírito Santo.

Apesar de todos os meios preparatórios, todas as ameaças e promessas do evangelho, todas as atividades da graça comum e todos os esforços dos pecadores não-regenerados, eles precisam nascer de novo para que se tornem filhos de Deus. É necessário que ocorra uma nova criação, uma obra realizada pelo Todo poderoso em .uma atividade soberana, especial e sobrenatural., à semelhança da criação do mundo ou do ressuscitar um morto, pois sem esta grandiosa realização ninguém pode ver o reino de Deus. A persuasão não é capaz de fazer novas criaturas. Se o Espírito Santo opera nas mentes dos homens somente por meio de apresentar-lhes os argumentos e motivos mais diversos e mais adequados para a sua conversão, afinal de contas a vontade do homem determinará se ele será regenerado ou não. Nesse tipo de ensino, a glória da regeneração pertenceria a nós mesmos. Também não haveria certeza se Cristo teria qualquer descendência espiritual, visto que dependeria da incerta resolução de cada pessoa diante da qual os motivos foram colocados. Isto contradiz as Escrituras. Deus não limita as realizações de seu Espírito à apresentação de motivos persuasivos diante dos homens, pois .apresentar-se-á voluntariamente o teu povo, no dia do teu poder. (Sl 110.3).

A persuasão moral que oferece uma vida melhor não outorga qualquer poder supernatural à alma, a fim de que esta seja capacitada a viver. A persuasão não produz novo interesse e discernimento espiritual. Se a regeneração acontece desta maneira, então o homem regenera a si mesmo, nasce de novo por si mesmo, tornando a si mesmo diferente dos outros homens. Se assim fosse, o Espírito Santo não teria mais a realizar do que fizeram Paulo e Apolo.

Não é por esse tipo de coisa que oramos: não oramos para que os motivos corretos sejam apresentados aos homens, para que regenerem a si mesmos. Oramos para que Deus mude os seus corações e os torne novas criaturas. As igrejas primitivas que sentiam intensas pressões externas invocavam esta súplica sobre os hereges, que negavam o exercício de um poder sobrenatural na regeneração.

Existe apenas uma maneira de uma pessoa morta em seus delitos e pecados ressurgir para a vida: por meio do poder de Deus que a vivifica e faz nascer de novo. Observe a linguagem que os escritores sagrados utilizaram para transmitirem este conceito: nascer de Deus, gerado de Deus, vivificar, receber vida e nascer de novo. Se disserem que esta linguagem é figurada, eu concordo. Mas, se encontramos qualquer significado nestas figuras, então a obra de regeneração fala do começo de uma nova existência espiritual. De outro modo, a linguagem das Escrituras, em todos os seus livros, é a mais obscura, imaginária e sem significado.

Você pode supor todas as preparações, conhecimento, motivos, moralidade, esforços que lhe convier; mas, apesar de tudo isso, repetimos, é necessário que aconteça o novo nascimento (os mortos precisam ser vivificados), pois os crentes são nascidos de Deus. O mesmo poder que ressuscitou Cristo dentre os mortos, o supremo poder do Deus vivo tem de realizar esta obra. Essa foi a súplica do apóstolo: que conheçamos .qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder, o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos. (Ef 1.19-20).

Na verdade, meus amigos, onde mais podemos encontrar a fonte de uma mudança que nos torna verdadeiros cristãos e nos traz da morte para a vida, senão na onipotência do Espírito Santo? É nosso entendimento que realiza esta mudança? Mas nosso entendimento está em trevas . .Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus... e não pode entendê-las. (1 Co 2.14). É a nossa vontade? Somos inclinados para o mal, assim como dois e dois são quatro. Nossas vontades são perversas e rebeldes. É o nosso poder? Cristo morreu pelos ímpios, que estão sem poder. Não somos capazes em nós mesmos de ter bons pensamentos. São os nossos méritos que realizam esta mudança? Não merecemos nada, exceto a condenação. São os ministros de Deus que nos convencem? Alguns podem semear a Palavra, e outros, regá-la, mas a germinação é realizada por Deus.

Todos os esforços têm sido realizados pela ingenuidade humana, mediante doutrinas claramente errôneas ou aparentemente plausíveis, a fim de retirar do Espírito Santo a glória da obra de regeneração e levar o homem a reivindicar esta realização para si mesmo ou, pelo menos, a compartilhar da honra. No entanto, a origem da regeneração se encontra somente na livre e soberana graça do todo poderoso poder de Deus. A regeneração é uma obra totalmente divina; a glória, portanto, tem de pertencer e pertencerá para sempre a Deus.

Uma doutrina sustentada pelos grandes mestres da Reforma e pelas igrejas evangélicas desde então é que a regeneração é uma obra física. Com isto eles queriam dizer que havia realmente uma nova criação, tão absoluta quanto a criação do mundo; um novo interesse, princípio e discernimento espiritual é implantado por meio de uma soberana obra criadora da parte de Deus e não simplesmente um novo direcionamento de velhas capacidades.

Uma vez que esta obra é reconhecida, todas as demais doutrinas que constituem a verdade evangélica fluem dela: as doutrinas da graça, a soberania de Deus, a eleição, a redenção somente por meio de Cristo, a depravação humana e outras a estas relacionadas. Existe um grande, harmonioso e perfeito conjunto de doutrinas, e Deus é a essência e a glória de todas elas.

Meus amigos, estou plenamente certo de que existem dificuldades nas doutrinas que acabamos de apresentar. Mas a Bíblia fundamenta todas elas; isto é o bastante. Diante dela nosso entendimento carnal tem de se prostrar e nossos corações, submeterem se. Se você mudar estas verdades, utilizando idéias misteriosas, conceitos inúteis ou inconsistências, será assaltado não pelos homens, e sim pelo próprio Deus. Leia e atente aos ensinos da Palavra de Deus. Ela afirma permanentemente, em caracteres reluzentes: .Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. (Jo 1.13).

Existe apenas um tipo de nascimento que pode nos preparar para o céu: .Se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. (Jo 3.3). Podemos atender à nossa imaginação e satisfazer nossa justiça própria, ao adotarmos os vagos conceitos pelagianos a respeito deste assunto; podemos protestar contra a absoluta dependência da graça de Deus, conforme demonstramos; mas perceberemos que um novo coração e um espírito de retidão são absolutamente necessários, pois sem eles pereceremos eternamente.

Asahel Nettleton (1783-1844) . Logo após sua conversão, Nettleton decidiu que serviria ao Senhor nos campos missionários, mas Deus tinha outros planos. Nettleton entrou na Universidade Yale em 1805 e formou-se em 1809. Ele tinha um intenso amor por Cristo e pelos perdidos.

Após estudar sob a orientação do Rev. Bezaleel Pinneo, de Connecticut, Nettleton começou seu ministério itinerante. Nesta época, muitos excessos e divisões estavam surgindo como resultado do Grande Avivamento. Após estudar as causas e os efeitos das numerosas desordens, ele adotou uma postura saudável para si mesmo e seu ministério. Desde o iní- cio de seu trabalho, Deus abençoou sua pregação com glorioso poder, e ocorreram vários avivamentos. Em 1817, ele foi ordenado evangelista congregacional. Foi um dos mais sábios e cautelosos evangelistas itinerantes que já abençoaram os Estados Unidos. Sua teologia estava em completa harmonia com a de homens piedosos que o precederam nas igrejas congregacionais e presbiterianas de seu país.


Francis Wayland, pastor da Primeira Igreja Batista de Boston e presidente da Universidade Brown, em cujo tempo um grande avivamento religioso aconteceu sob a influência da pregação de Nettleton, descreveu-o assim: .Ele é um dos mais eficientes pregadores que já conheci. Ele conseguia fazer que a lógica assumisse uma forma atraente e produzisse efeitos decisivos. Quando Nettleton argumentava sobre grandes doutrinas, tais como as da carta aos Romanos: eleição, completa depravação do homem, a necessidade de regeneração e de expiação dos pecados, seu estilo de pregar com freqüência era socrático..

20 de jan. de 2011

20 de nov. de 2010

O que é regeneração? – M. Lloyd-Jones


A implantação de um princípio de nova vida espiritual e uma mudança radical na disposição governante da alma. Deixem-me explicar o que quero dizer com isso. O importante que se deve captar é toda a idéia de disposição. Além das faculdades de nossas almas, há algo por trás delas que as governa todas, e isso é o que referimos como sendo nossa disposição. Tomem dois homens. Eles possuem as mesmas faculdades; no que diz respeito às suas habilidades, não se pode fazer nada para optar-se entre elas; um, porém, vive uma vida recomendável, o outro vive uma vida má. O que faz a diferença? A resposta é que o homem bom possui uma boa disposição, e essa boa disposição, esse algo que está por trás das faculdades e as governa e delas se utiliza, o impulsionam a usar suas faculdades na direção da bondade. O outro homem possui uma disposição má, e assim ele incentiva as mesmas faculdades numa direção inteiramente diferente. Isso é o que se pode dizer por disposição.

Quando vocês se põem a meditar nela, e quando se põem a fazer uma auto-analise, sua vida e toda a sua conduta e comportamento, bem como os de outras pessoas, perceberão imediatamente que essas disposições são, naturalmente, de tremenda importância. Elas são aquela condição, se o preferirem, que determina o que fazemos e o que somos. Permitam-me que lhes apresente outros exemplos. Pensem em pessoas que possuem diferentes interesses e habilidades. Escolham duas pessoas que são mais ou menos opostas; uma que seja artista e outra que seja cientista. Qual é a diferença entre elas? Ora, vocês não podem dizer que a diferença está na faculdade intelectual, nem dizer que a diferença está nas faculdades de suas almas. Claro que não, mas há em cada pessoa uma disposição que parece determinar o tipo de pessoa que ele ou ela é. E isso que direciona as faculdades e as habilidades, a fim de que uma pessoa seja artista e outra cientista, e assim por diante. Pois bem, estou salientando este ponto para mostrar que o que sucede na regeneração é que Deus assim opera sobre nós no Espírito Santo, para que essa nossa disposição fundamental seja transformada. Ele põe um santo princípio, uma semente de nova vida espiritual, nessa disposição que determina o que eu sou e como me comporto e como uso e emprego minhas faculdades.

Permitam-me apresentar-lhes uma grande ilustração para mostrar o que tenho em mente. Tomem o caso do apóstolo Paulo. Olhem para ele como Saulo de Tarso. Não há dúvida sobre sua habilidade, nem sobre seu entendimento, nem sua força de vontade. Não há nenhuma dúvida sobre sua memória. Suas faculdades estão aí, e são claras e salientes; ele fora sempre um homem notável. Mas ei-lo aí, perseguindo a Igreja, considerando o Filho de Deus um blasfemo; e ele se dirige a Damasco, "respirando ameaças e morte", usando de todos os seus poderes para exterminar a Igreja Cristã. Vejam-no, porém, mais tarde, pregando o evangelho como jamais havia sido pregado antes ou desde então, com as mesmas faculdades, com as mesmas habilidades, a mesma personalidade, o mesmo em tudo, movendo-se, porém, na direção exatamente oposta. O que havia mudado? Não as faculdades da alma de Paulo - elas ainda são as mesmas: a mesma veemência, a mesma lógica, a mesma eficácia, a mesma prontidão em arriscar tudo, completamente; ele é, obviamente, o mesmo homem. E não obstante toda a direção, toda a inclinação, toda a perspectiva tem mudado. Ele é um homem diferente. O que lhe teria acontecido? Agora ele possui uma nova disposição.

Estou enfatizando isso por esta boa razão: só através da compreensão desse fato é que somos capazes de entender a diferença entre regeneração e uma mudança e processo psicológicos. Vejam bem, quando homens e mulheres são regenerados, não se transformam todos na mesma coisa, como selos postais. Mas quando se tornam vítimas de um movimento psicológico, a tendência é se tornarem idênticos - uma distinção muitíssimo importante. Quando as pessoas são regeneradas os dons particulares que as constituem nos homens e nas mulheres que são sempre permanecem constantes. Paulo, segundo os lembrei, era essencialmente o mesmo homem quando pregava o evangelho como era quando o denunciava e o perseguia. Com isso quero dizer que ele era o mesmo indivíduo e que fazia as coisas da mesma maneira.Deus não intentou que todos sejamos idênticos como cristãos. Não intentou que todos falemos, preguemos e oremos da mesma forma. O evangelho não produz esse tipo de mudança, e se acreditam que a regeneração faz isso, então vocês têm uma falsa doutrina da regeneração. O que ela faz é lidar com essa disposição que está por trás de tudo, mudando-a; esse algo fundamental que determina a tendência, a conduta, o hábito. E vital que compreendamos que a mudança na regeneração se realiza na disposição.

Então, em segundo lugar, devido ao poder da disposição em nós, segue-se necessariamente, que essa mudança irá afetar a pessoa toda. Porventura alguém pensa que estou contradizendo uma de minhas negativas? Tenho sustentado que a pessoa toda não é inteiramente mudada - estaria agora afirmando o contrário? Mantenho minha negativa, mas digo que, em princípio, em virtude da mudança na disposição, a pessoa toda é afetada. O modo como uso minha mente será afetado, a operação de minhas emoções será afetada, e assim será com minha vontade, porque, por definição, a disposição está por trás de todas essas volições e lhes dá direcionamento. E assim, quando essa minha disposição é mudada, então me porto como uma pessoa com uma mente nova. Antes, eu não me interessava pelo evangelho; agora me sinto muitíssimo interessado nele. Antes, não podia entendê-lo; agora o entendo.

A mudança em minha disposição, porém, não significa que agora o meu intelecto seja maior do que antes! Ao contrário, tenho exatamente o mesmo intelecto, a mesma mente. Mas, visto que a disposição governante é transformada, minha mente é operante numa esfera diferente e de uma forma diferente, de maneira que aparenta ser uma mente nova. E exatamente o mesmo se dá com os sentimentos. Um homem que costumava odiar o evangelho, agora o ama. Uma mulher que odiava o Senhor Jesus Cristo, agora O ama. E o mesmo se dá com a vontade: a vontade resistia, era obstinada e rebelde; mas agora ela deseja, é zelosa, se preocupa com o evangelho.

A próxima coisa a dizer é que essa mudança é algo instantâneo. Agora percebem a importância de se fazer diferença entre geração e nascimento efetivo? Geração, por definição, é sempre um ato instantâneo. Há um certo momento, um lampejo, em que o germe da vida entra, impregna; essa é uma ação instantânea. Noutras palavras, não há na regeneração estágios intermediários. A vida é ou não implantada; não pode ser parcialmente implantada. Não é gradual. Ora, desejo uma vez mais enfatizar esse ponto. Quando digo que ela é instantânea, não estou me referindo à nossa consciência dela, mas ao fato em si mesmo, como ele é realizado por Deus. Consciência, naturalmente, ocorre na esfera do tempo, enquanto que esse ato de germinação é coisa súbita, e essa é a razão por que ela é imediata.
E assim, a próxima coisa - e isso uma vez mais é muitíssimo importante - é que a geração, a implantação dessa semente de vida e a mudança da disposição, ocorre no subconsciente, ou, se vocês o preferirem, no inconsciente. Nosso Senhor explicou isso plenamente a Nicodemos (João, capítulo 3). E uma operação secreta, uma operação insondável, a qual não pode ser diretamente percebida por nós; aliás, não podemos nem mesmo entendê-la plenamente. A primeira coisa que sabemos sobre ela é que a mesma aconteceu, visto que somos conscientes de algo diferente, mas isso não significa que podemos entendê-la e que realmente podemos penetrar no seu recôndito.

Permitam-me que agora lhes apresente a base autoritativa para isso. Nicodemos, como todos nós, estava tentando entendê-la. Nosso Senhor lhe disse: "se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus" (João 3:3). "Meu querido Nicodemos", disse Ele, com efeito, "você está tentando entender a diferença entre você e Eu, e o que estou fazendo. Pare com isso! Não se trata de mudar, ou de entender essa ou aquela coisa em particular; é a disposição governante de sua vida que deve ser mudada; você precisa nascer de novo. E algo por trás de todas essas faculdades que você está tentando usar."

Perguntou Nicodemos: "Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer?" (João 3:4). Ele queria entender, e nosso Senhor continuava dando a mesma resposta, e Nicodemos continuava argüindo.

Eventualmente nosso Senhor o colocou para ele dessa forma: "O vento sopra onde quer..." Há algo de soberano nisso. Vocês não sabem quando o vento deverá vir ou ir, ele decide seu próprio tempo. Vocês não sabem onde ele começa e onde ele termina. "O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz" - vocês têm consciência de que ele está soprando - "mas não sabes donde vem, nem para onde vai" (João 3:8). Vocês não o vêem; podem ouvi-lo, podem ver as coisas balouçando ao sabor da brisa, mas não entendê-lo. Há um mistério em torno do vento, algo insondável. Vocês não podem sondá-lo ou agarrá-lo com seu entendimento, mas podem ver os resultados. "Assim é todo aquele que é nascido do Espírito" (v. 8).

Certas pessoas ignoram isso completamente, porque traduzem o vento do versículo 8 como "o Espírito sopra" - o Espírito Santo. Evidentemente, porém, não tem esse sentido, não pode significar isso, visto que nosso Senhor está se valendo de uma ilustração. Ele está falando sobre o vento, a ventania, se o preferem, não o Espírito Santo, nem qualquer outro espírito. "Ele sopra onde quer, e ouves a sua voz" - vocês não podem vê-lo, mas vêem os efeitos e os resultados - "assim é todo aquele que é nascido do Espírito." Eis aí a natureza essencial dessa grande mudança.

Portanto meu quarto ponto é que a regeneração é obviamente algo realizado por Deus. E um ato criador de Deus no qual homens e mulheres são inteiramente passivos e não contribuem em nada, absolutamente nada! Lemos em João 1:13: "os quais não nasceram" - vocês não dão à luz a si mesmos - "do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas" -inteiramente! - "de Deus". Deus implanta esse princípio, essa semente de vida espiritual. E uma vez mais, naturalmente, temos as palavras de nosso Senhor expressas a Nicodemos: "se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne" - e ela não pode fazer nada a respeito - "e o que é nascido do Espírito é espírito" (João 3:5,6). Noutras palavras, os termos são que somos nascidos outra vez. E algo que nos sucede; somos gerados, não geramos a nós mesmos, não podemos gerar a nós mesmos. E inteiramente obra de Deus em nós e sobre nós.

Não terminamos ainda nossa consideração dessa grande, essencial e central doutrina, mas espero que, neste ponto, a grande idéia esteja clara em nossas mentes e em nosso entendimento, ou seja, que é aí, na disposição, que Deus opera, e é Deus, através do Espírito Santo, quem faz isso. Nascemos do Espírito.

Hesito agora em usar de ilustração; vou lembrá-los, porém, de que nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo nasceu da virgem, Maria, sim, mas foi concebido do Espírito Santo. Algo comparável, similar a isso - não a mesma coisa, cumpre-me deixar bem claro - parece suceder aqui. Esse princípio de vida espiritual, essa mudança, portanto, na disposição, é algo que se realiza pelo Espírito de Deus. A natureza humana não é inteiramente mudada por ela, visto, porém, que a disposição é mudada, todo homem ou mulher é como uma nova criação. Em cada aspecto, eles são pessoas diferentes, visto que esse algo fundamental que governa todas as outras partes foi mudado neles.

As faculdades, entretanto, permanecem como antes. Jamais tentem ser outra pessoa; sejam vocês mesmos. Deus quer que sejam vocês mesmos. Ele os fez como fez, e podem glorificá-lo melhor sendo vocês mesmos. Sejam sempre cautelosos com cristãos que falam da mesma maneira e são os mesmos em muitos aspectos*, isso se assemelha mais a um fator psicológico do que espiritual. Todo homem, toda mulher, cada um individualmente, permanece o que ele ou ela era, e assim vocês retêm a gloriosa variedade nos apóstolos e na Igreja Cristã através dos séculos. Todos concomitantemente testificam do mesmo Salvador e da mesma graça, da mesma regeneração, da mesma mudança na disposição, mas revelado segundo os dons e faculdades, as inclinações e poderes que Deus concedeu a cada pessoa.

Que maravilhosa salvação, que glorioso método de redenção! Oh, como aprecio uma palavra que é usada pelo autor da Epístola aos Hebreus, no segundo capítulo. Ela descreve e define perfeitamente o que estou tentando dizer. Falando sobre esta grande salvação, o autor diz de Deus: "Porque convinha que aquele" - era preciso que Ele, foi o Seu modo de fazê-lo -"para quem são todas as coisas, e por meio de quem tudo existe, em trazendo muitos filhos à glória, aperfeiçoasse pelos sofrimentos o autor da salvação deles" (Heb. 2:10) ~ convinha que Ele! E espero que todos nós, tendo considerado assim abreviada e inadequadamente esta grande doutrina, digamos a mesma coisa. E o método de salvação que convinha a Ele, ao Deus Todo-poderoso.
  

13 de nov. de 2010

A Regeneração Precede a Fé - R.C. Sproul




Um dos momentos mais dramáticos em minha vida, na formação de minha teologia, ocorreu em uma sala de aula de um seminário. Um de meus professores foi ao quadro negro e escreveu estas palavras em letras garrafais:

A REGENERAÇÃO PRECEDE A FÉ

Aquelas palavras foram um choque para o meu sistema. Eu tinha entrado no seminário crendo que a obra principal do homem para efetivar o novo nascimento era a fé. Eu pensava que nós tínhamos que primeiro crer em Cristo, para então nascermos de novo. Eu uso as palavras "para então" aqui por uma razão. Eu estava pensando em termos de passos que deviam ocorrer em uma certa seqüência. Eu colocava a fé no princípio. A ordem parecia algo mais ou menos assim:

"Fé - novo nascimento -justificação."

Eu não tinha pensado sobre esse assunto com muito cuidado. Nem tinha atentado cuidadosamente às palavras de Jesus a Nicodemus. Eu presumia que mesmo sendo um pecador, uma pessoa nascida da carne e vivendo na carne, eu ainda tinha uma pequena ilha de justiça, um pequeno depósito de poder espiritual remanescente em minha alma para me capacitar a responder ao Evangelho sozinho. Possivelmente eu tinha sido confundido pelo ensino da Igreja Católica Romana. Roma, e muitos outros ramos do Cristianismo, tem ensinado que a regeneração é graciosa; ela não pode acontecer aparte da ajuda de Deus.

Nenhum homem tem o poder para ressuscitar a si mesmo da morte espiritual. A divina assistência é necessária. Esta graça, de acordo com Roma, vem na forma do que é chamado graça preveniente. "Preveniente" significa que ela vem antes de outra coisa. Roma adiciona a esta graça preveniente o requerimento de que devemos "cooperar com ela e assentir diante dela", antes que ela possa atuar em nossos corações.

Esta concepção de cooperação é na melhor das hipóteses uma meia verdade. Sim, a fé que exercemos é nossa fé. Deus não crê por nós. Quando eu respondo a Cristo, é a minha resposta, minha fé, minha confiança que está sendo exercida. O assunto, contudo, se aprofunda. A questão ainda permanece: "Eu coopero com a graça de Deus antes de eu nascer de novo, ou a cooperação ocorre depois?" Outro modo de fazer esta pergunta é questionar se a regeneração é monergista ou sinergista. Ela é operativa ou cooperativa? É eficaz ou dependente? Algumas destas palavras são termos teológicos que requerer maior explanação.

MONERGISMO E SINERGISMO

Uma obra monergística é uma obra produzida por uma única pessoa. O prefixo mono significa um. A palavra erg refere-se a uma unidade de trabalho. Palavras como energia são construídas com base nessa raiz. Uma obra sinergística é uma que envolve cooperação entre duas ou mais pessoas ou coisas. O prefixo sun significa "juntamente com".

Eu faço esta distinção por um razão. O debate entre Roma e Lutero foi travado sobre este simples ponto. A questão era esta: A regeneração é uma obra monergística de Deus ou uma obra sinergística que requer cooperação entre homem e Deus? Quando meu professor escreveu "A regeneração precede a fé" no quadro negro, ele estava claramente tomando o lado da resposta monergística. Depois de uma pessoa ser regenerada, esta pessoa coopera pelo exercício de sua fé e confiança. Mas o primeiro passo é a obra de Deus e de Deus tão-somente.

A razão pela qual não cooperamos com a graça regeneradora antes dela agir sobre nós e em nós é que nós não podemos. Não podemos porque estamos mortos espiritualmente. Não podemos assistir o Espírito Santo na vivificação de nossas almas para a vida espiritual, da mesma forma que Lázaro não podia ajudar Jesus a ressuscitá-lo dos mortos.

Quando comecei a lutar com o argumento do Professor, fiquei surpreso ao descobrir que o estranho som de seu ensino não era novidade. Agostinho, Martinho Lutero, João Calvino, Jonathan Edwards, George Whitefield - até o grande teólogo medieval Tomás de Aquino ensinaram esta doutrina. Tomás de Aquino é o Doctor Angelicus da Igreja Católica Romana. Por séculos seu ensino teológico era aceito como dogma oficial pela maioria dos Católicos. Então, ele era a última pessoa que eu esperava sustentar tal visão da regeneração. Todavia Aquino insistiu que a graça regeneradora é uma graça operante, e não uma graça cooperativa. Aquino falou da graça preveniente, mas ele falou de uma graça que vem antes da fé, que é a regeneração.

Estes gigantes da história Cristã derivaram a visão deles das Sagradas Escrituras. A frase chave na Carta de Paulo aos Efésios é esta: "estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)" (Efésios 2:5). Aqui Paulo localiza o tempo em que a regeneração ocorre. Ela ocorreu "quando estávamos ainda mortos". Com um único raio de revelação apostólica foram esmagadas, total e completamente, todas as tentativas e entregar a iniciativa na regeneração aos homens. Novamente, homens mortos não cooperam com a graça. A menos que a regeneração ocorra primeiro, não há possibilidade de fé.

Isso não diz nada de diferente do que Jesus disse a Nicodemus. A menos que um homem nasça de novo primeiro, ele não pode ver ou entrar no reino de Deus. Se nós cremos que a fé precede a regeneração, então nós colocamos nossos pensamentos, e, portanto, nós mesmos, em direta oposição não só aos gigantes da história Cristã, mas também ao ensino de Paulo e do nosso próprio Senhor Jesus Cristo.

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O homem, cujo tesouro é o Senhor, tem todas as coisas concentradas nEle. Outros tesouros comuns talvez lhe sejam negados, mas mesmo que lhe seja permitido desfrutar deles, o usufruto de tais coisas será tão diluído que nunca é necessário à sua felicidade. E se lhe acontecer de vê-los desaparecer, um por um, provavelmente não experimentará sensação de perda, pois conta com a fonte, com a origem de todas as coisas, em Deus, em quem encontra toda satisfação, todo prazer e todo deleite. Não se importa com a perda, já que, em realidade nada perdeu, e possui tudo em uma pessoa Deus de maneira pura, legítima e eterna. A.W.Tozer

"A conversão tira o cristão do mundo; a santificação tira o mundo do cristão." JOHN WESLEY"

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