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20 de dez. de 2010

A Felicidade é uma Promessa de Deus?


A felicidade tem sido o alvo da humanidade. Muitos afirmam que têm a felicidade como objetivo de suas vidas. Mesmo aqueles que não verbalizam isto acabam vivendo baseados neste princípio. De fato tudo é estabelecido com base nisto. É aceitável, para as pessoas, que alguém troque de emprego se está infeliz. Se alguém troca de curso na universidade afirmando que não estava se sentindo feliz, a razão é aceita pela maioria das pessoas como válida. Se alguém não está feliz com seu casamento, para muitos seria normal trocar de cônjuge, afinal ser feliz é o objetivo. A felicidade é tida como um direito de todo ser humano.
Quando pensamos em Deus, sabemos que Ele é bom, que é galardoador de boas dádivas, que tudo que é bom vem Dele, então também pensamos que Deus nos dará a felicidade, pois ela é muito boa. Quando vemos as pessoas infelizes falamos para elas que isso é ausência de Deus, e que se tivessem um relacionamento com Ele não seriam assim tão infelizes. Chegamos mesmo a prometer para as pessoas que se vierem para Jesus serão felizes. O que o homem deseja é ser feliz, e tudo o que for feito dentro do padrão aceito pela sociedade, visando atingir este alvo, será compreendido.
A questão, no entanto é: Deus prometeu fazer-nos felizes?
Vemos Deus como sendo tão bom que a pergunta parece impertinente. “É claro que Deus prometeu isso”, alguém dirá. “Essa é a melhor coisa que alguém pode ter. Maior que bens materiais, maior que dinheiro, que o sucesso, se Deus é bom fará isso por nós.”
Entretanto não há essa promessa na Bíblia. Deus não prometeu fazer-nos felizes. Deus prometeu fazer-nos santos. Toda sua obra visa libertar-nos do poder do pecado, tornar-nos parecidos com seu Filho Jesus Cristo, para que com isso possamos habitar no céu eternamente. O objetivo do homem é a felicidade, o de Deus é a santidade.
Deus quer que compreendamos esta verdade, Ele deseja fazer-nos santos. Isto não significa dizer que servir a Deus é sinônimo de infelicidade. O crente não é infeliz. A verdade é que a felicidade no plano de Deus é o resultado de uma vida santa. Deus não quer que vivamos ansiosos pela felicidade, que façamos tudo em busca dela. Isso é obra do homem sem Deus. Deus quer que estejamos contentes em toda e qualquer situação, quer que aprendamos a depender Dele, que desejemos ser santos como Ele é santo. São estas coisas que o crente deve desejar.
Sansão foi um exemplo de alguém que pensou em ser feliz. Quando foi a Timna, uma cidade ocupada pelos filisteus viu uma mulher pela qual se apaixonou. Sansão então pediu a seu pai que a tomasse por esposa para ele. Seus pais, porém disseram a ele que não tomasse por esposa uma mulher filha de incircuncisos. Em outras palavras seus pais estavam lhe dizendo que ele deveria se casar com uma mulher da mesma fé. Sansão respondeu a seus pais: “Tomai-me esta, porque só dela me agrado” (Jz 14.1,2). Sansão estava afirmando que só seria feliz casando-se com aquela mulher. Nos dias de hoje Sansão seria apoiado por muitos, inclusive crentes. Diriam que ele estava certo, pois se estava apaixonado e se só assim seria feliz, que então buscasse seu objetivo, mesmo contra a vontade de seus pais. Para todos os lados em que olhamos vemos esta “regra”: Se é para ser feliz então vale à pena. Sabemos o final da história deste casamento de Sansão. Mesmo na festa o casamento já estava acabado e o que se seguiu foi uma grande tragédia. Sansão mostra o prejuízo que temos quando pensamos na felicidade em primeiro lugar.
Quando o crente entende e tira a felicidade do primeiro lugar de sua vida então Deus começa a torná-lo feliz. Davi escreveu: “Agrada-te do Senhor, e Ele satisfará os desejos do seu coração” (Sl 37.4). Em outras palavras Davi estava dizendo: Seja Deus suficiente para você, esteja contente com Ele, deixe-O decidir o que é melhor para você, procure fazer sempre a vontade Dele em primeiro lugar, e como resultado Ele satisfará o que o seu coração deseja.
Ao contrário de Sansão que queria agradar-se a si mesmo para ser feliz, Davi diz que devemos deixar Deus nos agradar. Quando desejamos muito algo, ficamos tentando nos convencer que aquilo é a vontade de Deus para nós. “Se somente assim seremos felizes então isso tem que ser a vontade de Deus”, dizemos para nós mesmos. A verdade é que isso não acontece. Confundimos nosso desejo por felicidade com a vontade de Deus. Resumindo, queremos agradar a nós mesmos e para não ficarmos com culpa na consciência tentamos nos convencer de que Deus também deseja aquilo.
Ser santo é abrir mão dos desejos pessoais e buscar aquilo que Deus deseja. Não tentemos misturar nosso desejo por felicidade com o desejo de Deus por santidade. Neguemos a nós mesmos e assim estaremos no caminho da santificação. Portanto a felicidade para o crente não é seu objetivo, é a conseqüência do seu desejo de agradar a Deus. Enquanto este mundo corre desesperadamente atrás da felicidade, o crente sábio busca a santidade, pois ele sabe que Deus prometeu fazê-lo santo, e a felicidade então, será só uma conseqüência.


Clodoaldo Machado

A Maior Perda - J. C. Ryle





“Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro


e perder a sua alma?” (Marcos 8.36)

Estas palavras de nosso Senhor Jesus Cristo deveriam ressoar em nossos ouvidos como o retinir de uma trombeta. Elas se referem aos nossos melhores e mais elevados interesses. Dizem respeito à nossa alma.
Que pergunta solene está contida nestas palavras da Escritura! Que imensa soma de beneficio e de perda elas propõem ao nosso cálculo! Onde está aquele que é capaz de avaliá-la? Onde está o matemático que não ficaria perplexo com essa soma?  “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”
Desejo oferecer algumas observações para ressaltar e ilustrar a pergunta que o Senhor Jesus nos faz nesta passagem. Rogo a atenção séria de todos os que lêem este artigo... Oh! que todos os que assim o fizerem sintam mais profundamente do que nunca o valor de uma alma imortal. Descobrir o valor de nossa alma é o primeiro passo em direção ao céu.
Minha primeira observação é esta: todos nós temos uma alma imortal. Não me envergonho de começar... com estas palavras. Ouso dizer que elas parecem estranhas e tolas para alguns leitores. Ouso dizer que alguns exclamarão: “Quem não sabe de coisas como essas? Quem jamais pensou em duvidar que temos alma?” Mas não posso esquecer que o mundo está agora fixando sua atenção nas coisas materiais em uma proporção sobremodo extravagante. Vivemos numa era de progresso... Vivemos numa época em que as multidões estão cada vez mais absorvidas nas coisas terrenas... Vivemos num tempo em que há um falso esplendor nas coisas temporais e grande obscuridade nas coisas eternas... Em uma época como esta, como ministros de Cristo, temos o sagrado dever de retornar aos princípios elementares. Ai de nós, se não incutirmos nos homens esta pergunta de nosso Senhor a respeito da alma! Ai de nós, se não clamarmos: “O mundo não é tudo. A vida que agora temos na carne não é a única vida. Há uma vida por vir. Temos uma alma”.
Fixemos em nossa mente o grande fato de que todos levamos em nosso íntimo algo que não morrerá. O nosso corpo, que demanda tanto de nosso tempo e pensamentos, para aquecê-lo, vesti-lo, alimentá-lo e torná-lo satisfeito – este corpo não é todo o homem. É apenas a habitação temporária de um morador nobre, e esse morador é a alma imortal!
A morte que todos temos de sofrer um dia não é o fim do homem. Tudo não se acaba quando uma pessoa dá o último suspiro e o médico lhe faz a última visita; quando o caixão é fechado, e fazem-se os preparativos do funeral; quando se pronuncia, sobre o caixão, a frase “e o pó volte ao pó”; quando nosso lugar no mundo é ocupado, e a nossa ausência da sociedade não é mais percebida. Não, tudo não acaba naquele momento! O espírito do homem continua vivendo. Todos possuem uma alma imortal...
E se não podemos ver nossa alma? Não existem milhões de coisas que nos são invisíveis a olho nu? Que não comprovou isso por olhar através do telescópio ou do microscópio? Se não podemos ver nossa alma, podemos senti-la.
Quando estamos sozinhos no leito de enfermidade e isolados do mundo; quando consideramos o leito de morte de um amigo; quando vemos aqueles que amamos serem entregues ao sepulcro – em ocasiões como essas, quem não sabe os sentimentos que nos vêm à mente? Quem não sabe que em horas como essas surge, em nosso coração, algo dizendo-nos que há uma vida por vir e que todos, desde o mais vil ao mais nobre, têm alma imortal?...
Posso imaginar que, às vezes, vocês são tentados a pensar que este mundo é tudo e que o corpo é tudo que devemos cuidar. Resistam a essa tentação e descartem-na. Digam para si mesmos, cada manhã, quando levantam, e cada noite, quando se deitam para dormir: “A aparência deste mundo passa. A vida que tenho agora não é tudo. Existe algo mais importante do que negócios, dinheiro, prazer e comércio. Há uma vida por vir. Todos nós temos alma imortal”.
Esta é a minha segunda observação: uma pessoa pode perder a sua alma. Essa é a parte desagradável de meu assunto. Contudo, é a parte que não ouso, nem posso, ignorar. Não tenho simpatia por aqueles que profetizam apenas paz e ocultam dos homens o terrível fato de que eles podem perder sua alma. Sou um daqueles antigos ministros que crêem em toda Bíblia e em tudo que ela diz. Não posso achar na Escritura qualquer fundamento para a teologia eloqüente que agrada muitos em nossos dias, de acordo com a qual todos chegarão ao céu, no final.
Creio que existem verdadeiramente tanto o Diabo como o inferno. Creio também que a caridade não pode impedir os homens de perderem sua alma... Se você visse um cego caminhando em direção a um precipício, você não gritaria: “Pare”? Lancemos fora as idéias erradas a respeito de caridade... A maior caridade é apresentar a verdade às pessoas. A verdadeira caridade consiste em adverti-las com bastante clareza, quando estão em perigo. Caridade é incutir nelas a verdade de que podem perder a sua alma para sempre no inferno...
Fracos como somos em tudo que é bom, temos um grande poder de causar dano a nós mesmos. Você não pode salvar a sua própria alma... lembre-se disso! Não pode estabelecer sua paz com Deus. Não pode remover um único pecado. Não pode apagar nenhuma das graves ofensas registradas no livro de Deus contra você. Não pode mudar seu próprio coração. Mas há uma coisa que você pode fazer: pode perder sua própria alma...
Quem é responsável pela perda de nossa alma? Ninguém, exceto nós mesmos. Nosso sangue cairá sobre nossa própria cabeça. A culpa estará em nós mesmos. Não teremos ao que apelar no Último Dia, quando estivermos diante do grande Trono Branco e os livros forem abertos. Quando o Rei vier para ver seus convidados e disser: “Amigo, como entraste aqui sem veste nupcial?” (Mt 22.12), ficaremos sem resposta. Nada justificará a perda de nossa alma.
Aonde vai a alma quando se perde? Há apenas uma resposta solene para essa pergunta. Há somente um lugar para onde ela pode ir – o inferno. Não existe algo como a aniquilação. A alma perdida vai àquele lugar onde o verme não morre e o fogo jamais se apaga – onde há escuridão e trevas, miséria e desespero para sempre. Ela vai para o inferno – o único lugar que lhe é adequado, visto que ela não está preparada para o céu. “Os perversos serão lançados no inferno, e todas as nações que se esquecem de Deus” (Sl 9.17).
Vivemos em época de grandes tentações. O Diabo está agindo, bastante ocupado. A noite vai alta. O tempo é curto. Não perca a sua própria alma.



Traduzido por: Pr. Wellington Ferreira
Copyright© Editora FIEL 2010
Extraído do capítulo “Nossa Alma”, no livro Old Paths, reimpresso por Banner of Truth Trust (www.banneroftruth.org).
O leitor tem permissão para divulgar e distribuir esse texto, desde que não altere seu formato, conteúdo e / ou tradução e que informe os créditos tanto de autoria, como de tradução e copyright. Em caso de dúvidas, faça contato com a Editora Fiel.

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"Deus Meu Deus Meu" - Robert M. M'Cheyne


Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste. Mateus 27.46

Estas são as palavras de maior segurança para os pecadores, enquanto Jesus estava pendurado no madeiro. Quanto mais medito, tanto mais acho impossível desvendar tudo o que está contido nelas. Freqüentemente você deve ter observado como algo tão pequeno pode encerrar em si uma seqüência de coisas tão grandes. Uma flâmula sobre o mastro principal é algo pequeno; todavia mostra claramente para que lado o vento sopra. Uma nuvem do tamanho da mão de um homem é algo pequeno; no entanto, pode mostrar que se aproxima uma forte tempestade. A andorinha é um pássaro pequeno; entretanto, anuncia que o verão chegou. Assim é com o homem. Um olhar, um vislumbre, uma idéia não completada — uma sentença incompleta — pode mostrar muito mais o que se passa interiormente do que um longo discurso. Assim aconteceu na morte do Salvador. Estas poucas palavras de sofrimento nos dizem mais do que grandes volumes de teologia. Que o Senhor nos capacite a encontrar algo aqui que alimente as nossas almas.

I - A perfeição da obediência de Cristo

1. Palavras de obediência. “Deus meu, Deus meu.” Ele foi obediente até a morte. Sempre tenho explicado a você como o Senhor Jesus veio para ser não somente um cumpridor como também o Salvador agonizante — não somente para sofrer tudo que nós deveríamos ter sofrido, mas também para obedecer a tudo que nós deveríamos ter obedecido — não apenas para sofrer a maldição da lei, mas para obedecer aos mandamentos da lei. Quando isto lhe foi proposto no céu, Ele disse:“Agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro do meu coração, está a tua lei” (Sl 40.8). Agora, olhe para Ele como um homem obediente ao seu Deus. Veja como Ele fez isso de forma tão perfeita — até o final! Deus lhe diz: “Cumpra a minha vontade”. Ele obedece: “Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai?” (Lc 2.49).Deus lhe diz: “Fale por mim aos pecadores” — Ele obedece: “Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis. A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4.32, 34).

Deus Lhe diz: “Morra em lugar dos pecadores — sofra a minha ira por amor aos inimigos — suporte a crucificação; derrame o seu sangue e entregue a sua vida por eles” — Ele obedece: “Ninguém a tira de mim” (Jo 10.18). Na noite anterior, Ele disse: “Não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu?” (Jo 18.11). Porventura, Ele recuaria ao chegar à cruz? Não; por três horas a escuri¬dão O envolveu, mas, ainda assim, Ele disse: “Deus meu, Deus meu”. Pecador, você tem a Cristo como sua segurança? Veja que obediência perfeita, em seu lugar! O grande mandamento de morrer pelos pecadores estava sobre Ele. Veja que obediência perfeita!

2. Palavras de fé. “Deus meu, Deus meu.” Estas palavras mostram a maior fé que já existiu neste mundo.

 Fé é crer na palavra de Deus, não porque a vemos ou sentimos que ela é a verdade, mas porque Deus a pronunciou. Na cruz, Cristo foi rejeitado. Ele não viu que Deus era o seu Deus — Ele não sentiu que Deus era o seu Deus; e, ainda assim, Ele creu na palavra de Deus, e bradou: “Deus meu, Deus meu”. (1) Davi demonstrou grande fé, conforme nos mostra o Salmo 42.7,8: “Um abismo chama outro abismo, ao fragor das tuas catadupas; todas as tuas ondas e vagas passaram sobre mim.

Contudo, o Senhor , durante o dia, me concede a sua misericórdia, e à noite comigo está o seu cântico, uma oração ao Deus da minha vida”.Ele se sentia como que coberto por um mar de sofrimentos. Ele não conseguia ver nenhuma luz — nenhum escape; não obstante, ele creu na palavra do Senhor e disse: “Contudo, o Senhor me concede misericórdia”. Isto é fé, que crê mesmo quando não vê. (2) Jonas mostrou grande fé: “Pois me lançaste no profundo, no coração dos mares, e a corrente das águas me cercou; todas as tuas ondas e as tuas vagas passaram por cima de mim. Então, eu disse: lançado estou de diante dos teus olhos; tornarei, porventura, a ver o teu santo templo?” (Jn 2.3,4). Ele estava, literalmente, no fundo do mar. Ele não conhecia um meio de escape — não via nenhuma luz — não sentia nenhuma segurança; ainda assim, ele creu na palavra de Deus.

Isso era ter uma grande fé. (3) Mas, ah! Eis alguém maior que Jonas! Eis uma fé maior que a de Davi — fé maior que a de Jonas — a maior fé que já existiu no mundo, no passado ou futuro. Cristo, na cruz, estava sob um mar mais profundo que aquele que cobriu Jonas. As ondas agitadas da ira de Deus lançaram-se com furor sobre Ele. Ele foi rejeitado por seu Pai — esteve em densas trevas — es¬teve no inferno; ainda assim, creu na palavra de Deus. “Pois não deixarás a minha alma na morte” (Sl 16.10). Ele não sente — Ele não vê — mas Ele crê e brada: “Deus meu, Deus meu”. “Ainda que ele me mate, nele esperarei” (Jó 13.15 - RC). Querido crente, esta é a sua segurança. Você sempre está descrente — desconfiado de Deus; contemple a sua segurança: Ele nunca deixou de confiar; apegue-se a Ele — você é completo nEle.

3. Palavras de amor. “Deus meu, Deus meu.” Estas foram as palavras de doce submissão que Jó pronunciou, quando Deus tirou filhos e bens: “Nu saí do ventre de minha mãe” (Jó 1.21). Tão doces, que ele pôde até bendizer a Deus, mesmo quando Ele lhe tirou tudo. Aquelas foram palavras de amor doce e submisso, as quais o velho Eli disse, quando Deus lhe falou que seus filhos morreriam: “É o Senhor; faça o que bem lhe aprouver” (1 Sm 3.18). O mesmo temperamento doce estava no âmago da mulher sunamita, cujo filho veio a morrer, quando o profeta lhe pergun¬tou: “Vai tudo bem contigo, com teu marido, com o menino? Ela respondeu: Tudo bem” (2 Rs 4.26). Mas, ah! Aqui está um amor maior — uma submissão maior e mais doce do que a de Jó, de Eli ou da mulher sunamita. Maior do que qualquer amor que já existiu no mundo. Aqui está alguém que fora pendurado entre a terra e o céu — rejeitado por seu Deus — sem um sorriso — sem qualquer consolo — sofrendo as agonias do inferno; mas, ainda assim, amando ao Deus que O rejeitou. Ele não bradou: “Cruel, Pai cruel!” Não! Mas, com toda veemência e afeição, clamou: “Deus meu, Deus meu”. Queridas almas, é esta a sua segurança? Vocês O têm como Aquele que obedeceu por vocês? Ah! Então, vocês são completos nEle. Vocês têm um amor muito pequeno por Deus. Com que freqüência vocês têm murmurado e pensado que Deus é cruel por tirar-lhes algumas coisas; mas, vejam a sua segurança, e regozijem-se nEle com alegria abundante. Todo o mérito de sua santa obediência lhes foi imputado.

II - a Intensidade dos sofrimentos de Cristo

Ele foi rejeitado por Deus: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” A Liturgia Grega diz: “Nós vos suplicamos, por todos os sofrimentos de Cristo, conhecidos e desconhecidos”. Quanto mais conhecemos os sofrimentos de Cristo, tanto mais entendemos que eles não podem ser perscrutados. Ah! Quem pode explicar todo o significado do pão partido e do vinho derramado?
1. Ele experimentou muito sofrimento da parte de seus inimigos. (1) Ele sofreu em todo o seu corpo. Em sua cabeça — foi coroada de espinhos e golpeada com uma vara. Em sua face — eles a golpearam, e Ele a ofereceu àqueles que Lhe arrancavam a barba: “Não escondi o rosto aos que me afrontavam e me cuspiam” (Is 50.6). Em seus ombros — que carregaram a cruz pesada. Em suas costas: “Ofereci as costas aos que me feriam”. Em suas mãos e pés: “traspassaram-me as mãos e os pés” (Sl 22.16). Em seu lado — um soldado cravou uma lança em seu lado. Ah! Quão bem Ele pôde dizer: “Isto é o meu corpo oferecido por vós” (Lc 22.19). (2) Ele sofreu em todos os seus ofícios. Como profeta: “Outros o esbofeteavam, dizendo: profetiza-nos, ó Cristo, quem é que te bateu!” (Mt 26.67-68). Como sacerdote: eles zombavam dEle, quando ofereceu-Se como oferta única pelo pecado. Como rei, quando, ajoelhando-se diante dEle, diziam: “Salve, rei dos judeus” (Jo 19.3). (3) Ele sofreu por parte de todos os tipos de homens — sacerdotes e anciãos — soldados e transeun¬tes — reis e ladrões: “Muitos touros me cercam, fortes touros de Basã me rodeiam” (Sl 22.12). — “Cães me cercam” (Sl 22.16) — “Como abe¬lhas me cercaram” (Sl 118.12). (4) Ele sofreu muito da parte do diabo: “Salva-me das fauces do leão” (Sl 22.21). Todo o sofrimento de Cristo foi uma batalha violenta e contínua contra Satanás: “Despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz” (Cl 2.15).

2. Ele sofreu muito da parte da¬queles que Ele salvou posteriormente. Quão amargo foi o escárnio do ladrão que naquele dia seria perdoado e aceito! Quão amargo os brados dos três mil, que logo chegaram a saber a Quem estavam crucificando!

3.      Da parte de seus discípulos. Todos O rejeitaram e fugiram. João, o discípulo amado, permaneceu de longe, e Pedro O negou. Dizem que quanto mais se espreme e esmaga a for da camomila, tanto mais doce é o aroma que ela deixa ao redor. Ah! Assim aconteceu com nossa doce Rosa de Saron. O Salvador, esmagado pelo sofrimento, exalou aquela doce fragrância ao seu redor. São estas pisaduras que fazem de seu nome um bálsamo derramado.

4.      Da parte do Pai. Todos os outros sofrimentos não foram nada em comparação a este: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Os outros sofrimentos foram limitados. Este foi um sofrimento infinito. Ser pisado pelo calcanhar de homens ou demônios era algo pequeno; mas, ah! ser esmagado pelo calcanhar de Deus: “Todavia, ao Senhor agradou moê-lo” (Is 53.10).

existem três considerações que nos mostram a Intensidade dos sofrimentos de Cristo:

1. Quem era Aquele que O rejeitou. Não era o seu povo, Israel — não era Judas, o traidor; não era Pedro, que O negou; nem João, que se recostava em seu peito. Ele poderia ter suportado tudo se assim fosse; mas, ah! foi seu Pai e seu Deus! As outras coisas pouco O afetavam, em comparação a esta. Os transeuntes meneavam a cabeça — Ele não disse uma palavra. O chefe dos sacerdotes escarneceu dEle — Ele não murmurou. Os ladrões zombavam ao lado dEle — Ele agia como um homem surdo, que nada ouvia. Deus trouxe três horas de escuridão sobre Ele — as trevas exteriores eram a imagem da escuridão que envolveu sua alma. Ah! isto foi agonia infinita: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”

2.      Quem era Aquele que foi rejeitado. (1) Alguém infinitamente querido por Deus. Vós me amastes antes da fundação do mundo; todavia, vós me rejeitastes. Eu estive desde sempre junto de Ti — em gozo infinito diante de Ti. Eu gozava do resplendor do vosso amor. Ah! Por que estas trevas tão terríveis me cercam? “Deus meu, Deus meu.” (2) Alguém que tinha infinita aversão pelo pecado. Que terrível é para um homem inocente ser lançado na cela de um crimino¬so condenado! Mas, ah! quão mais terrível foi para Cristo, que possuía infinita aversão pelo pecado, o ser considerado pelo Pai como pecador. (3) Alguém que tinha o gozo infinito do favor de Deus. Quando dois ami¬gos dedicados se encontram, eles têm um gozo intenso do amor um do outro. Quão doloroso é suportar os olhares frios e adversos daquele em cujo favor você encontrava este gozo indizível! Mas, ah! isso nada é quan¬do comparado à dor de Cristo.

3.      O que Deus fez a Ele — rejeitou-O. Prezados amigos, contemplemos este oceano no qual Cristo mergulhou. (1) Ele foi privado de todas as consolações de Deus — não sentia o amor de Deus; não sentia que Deus se compadecia dEle; não sentia que Deus Lhe dava amparo. Antes Deus era seu sol. Agora aquele sol se transformou em trevas. Nenhum sorriso de seu Pai — nenhum olhar agradável, nenhuma palavra bondosa.

(2)    Ele estava sem Deus — era como se Ele não tivesse Deus. Tudo o que Deus havia sido para Ele antes foi-Lhe tirado. Ele estava sem Deus — privado da comunhão com seu Deus.

(3)    Ele teve o mesmo sentimento do um condenado, quando o juiz lhe diz: “Aparta-te de mim, maldito, que deve ser punido com destruição eterna, fora da presença do Senhor e da glória de seu poder” . Ele sentiu que Deus Lhe dissera o mesmo. Ah! este foi o inferno que Cristo sofreu. Queridos amigos, sinto-me como uma criancinha lançando uma pedra em alguma ribanceira na montanha, atento por ouvir sua queda — mas ouvindo em vão; ou como o marinheiro que lança o prumo ao mar, o qual é muito fundo — a mais longa corda não pode alcançar. O oceano dos sofrimentos de Cristo é insondável.

III - respostas ao

“por que me desamparaste?”

Por ser Ele a segurança dos pecadores e oferecer-se em lugar deles.

1. Ele concordou com seu Pai, antes de toda a eternidade, em colo¬car-se no lugar dos pecadores e por eles sofrer, ou seja, toda a maldição que deveria ser lançada sobre eles, caiu sobre Jesus. Por que Ele ficaria tão surpreso por Deus ter derramado toda a sua ira? “Por que me desamparaste?” O motivo é que Jesus fez aliança para colocar-Se em lugar dos pecadores.

2.      Ele se dispôs. Ele manifestou no semblante a intrépida resolução. “Fiz o meu rosto como um seixo” (Is 50.7). Deus colocou o cálice diante dEle, no jardim, dizendo: “Estás disposto a bebê-lo ou não?” Ele respondeu: “Não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu?” (Jo 18.11). “Todavia, ao Senhor agradou moê-lo” (Is 53.10). Por quê? Porque Jesus, ao escolher ser a segurança, não recuaria.

3.      Ele sabia que, se não sofresse, o mundo inteiro teria de sofrer. Foi sua compaixão pelo mundo que O fez assumir o lugar de Salvador: “Viu que não havia ajudador algum e maravilhou-se de que não houvesse um intercessor; pelo que o seu próprio braço lhe trouxe a salvação, e a sua própria justiça o susteve” (Is 59.16) Por quê? Porque ou Ele, ou o mundo — inferno para Ele ou para toda a humanidade.

Lições para nós:

1. Lição para as pessoas sem Cristo. Esteja ciente do seu perigo. Onde quer que Deus veja pecado, Ele irá puni-lo. Ele puniu os anjos rebeldes — puniu Adão — o mundo antigo —   Sodoma; e, quando viu o pecado sobre Cristo, rejeitou seu próprio Filho. Você faz pouco caso do pecado. Veja o que Deus pensa sobre o pecado. Ainda que seja apenas um pecado que esteja sobre você, se este não tiver sido expiado, você não será salvo. Deus diz: 

“Ainda que... fosse o anel do selo da minha mão direita
      ainda que fosse meu filho amado
      eu dali o arrancaria” (Jr 22.24). 

Oh! deixe-me persuadi-lo, neste dia, a aproximar-se de Jesus Cristo!

2. Lição para aqueles que estão em Cristo. Admire o amor de Jesus. Oh! que mar de ira Ele suportou por você! Que sofrimento Ele experimentou por você, alma ingrata e vil! O corpo transpassado e o sangue derramado — representados no pão e no cálice — são provas do seu amor. Oh! que o seu coração transborde em anelo pelo Salvador!

Diríamos a todos os que estão em Cristo: Ele foi rejeitado, em lugar dos pecadores. Se você O tem como sua única segurança, nunca será rejeitado.

Do corpo transpassado
e do sangue derramado
surge o clamor:
“Deus meu, Deus meu,
por que me desamparaste?”
Por mim — Por mim!

Que Deus abençoe a sua Palavra.

Tua Ruína Vem de Ti - João Calvino


Vejam-se agora aqueles que ousam inculcar suas faltas a Deus, porquanto afirmamos que os homens são corruptos de natureza. Buscam, erroneamente, em sua depravação a obra de Deus que deveriam procurar naquela natureza de Adão até esse momento íntegra e incorrupta. Da culposidade de nossa carne, portanto, não de Deus, procede nossa perdição, uma vez que, não por outra razão, temos perecido, mas porque fomos degenerados de nossa primeira condição.

Que aqui ninguém vocifere dizendo que Deus poderia ter acudido melhor à nossa salvação, se houvesse impedido a queda de Adão, visto que essa objeção, em vista da curiosidade em extremo ousada que envolve, não só deve ser abominada pelas mentes piedosas, como também pertence ao mistério da predestinação, que se haverá de tratar mais adiante em seu devido lugar. 

Portanto, lembremo-nos de que nossa ruína deve ser imputada à depravação de nossa natureza, não à natureza em si, em sua condição original, para que não lancemos a acusação contra o próprio Deus, como sendo o autor dessa natureza.  É certamente verdadeiro que essa ferida mortalnos é inerente à natureza, mas em muito avulta se porventura tenha provindo de outra parte, ou se nelaesteja empostada desde a origem. Salta, porém, à vista que foi ela infligida através do pecado.

Portanto não há por que nos queixarmos, a não ser de nós mesmos, que a Escrituradiligentemente tem assinalado, pois diz o Eclesiastes: “Isto sei, que Deus fez o homem reto, mas eles próprios buscaram para si muitas invenções” [Ec 7.29].
É óbvio que somente ao homem se deve imputar aprópria ruína, uma vez que, pela benignidade de Deus, havendo obtido a retidão, por seu desvario ele caiu na fatuidade. 

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Mensagem do Dia

O homem, cujo tesouro é o Senhor, tem todas as coisas concentradas nEle. Outros tesouros comuns talvez lhe sejam negados, mas mesmo que lhe seja permitido desfrutar deles, o usufruto de tais coisas será tão diluído que nunca é necessário à sua felicidade. E se lhe acontecer de vê-los desaparecer, um por um, provavelmente não experimentará sensação de perda, pois conta com a fonte, com a origem de todas as coisas, em Deus, em quem encontra toda satisfação, todo prazer e todo deleite. Não se importa com a perda, já que, em realidade nada perdeu, e possui tudo em uma pessoa Deus de maneira pura, legítima e eterna. A.W.Tozer

"A conversão tira o cristão do mundo; a santificação tira o mundo do cristão." JOHN WESLEY"

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Alimentar-se da Palavra "Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração." (Hebreus 4 : 12).Erram por não conhecer as Escrituras, e nem o poder de Deus (Mateus 22.29)Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo. Apocalipse 1:3

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